Resistência francesa

Cartunista Plantu completa 38 anos de charge política na 1.ª página do Le Monde e prepara desembarque em São Paulo

João Paulo Charleaux, O Estado de S.Paulo

20 de junho de 2010 | 00h00

A política internacional tem traços tristes. A brisa atômica que sopra do Irã, as ameaças de guerra da Coreia do Norte e o ataque israelense a um barco humanitário na semana passada são as provas recentes. Mas é inegável que os atores desses dramas, vistos de perto, estão mais para caricaturas grotescas do que para bustos de bronze em praça pública. Desnudar a fragilidade dos poderosos tem sido o mérito do cartunista francês Jean Plantureux, que há 38 anos publica as charges da primeira página do Le Monde, um dos mais tradicionais e influentes jornais do mundo. Plantu, como é conhecido, fará exposição em São Paulo, com inauguração prevista para o dia 27 de setembro.

Apesar do entusiasmo com as novas tecnologias, o cartunista - que trabalhou na equipe do belga Hergé, criador do mítico personagem Tintin - ainda prefere desenhar com lápis grafite e canetinhas coloridas sobre folhas de papel. A internet, segundo ele, tem sido a ferramenta preferida dos extremistas religiosos - cristãos e muçulmanos - que sonham em exercer algum controle sobre o humor ocidental e a imprensa livre.

Em 2006, quando jornais europeus publicaram charges do profeta Maomé, despertando a ira dos muçulmanos, Plantu deu uma mostra de sua crítica precisa e sutil, desenhando a si mesmo escrevendo mil vezes: "não devo desenhar Maomé". A seguir, os principais trechos da entrevista concedida ao Estado, de Paris, por e-mail:

Como encontrar o lado cômico, grotesco e contraditório dos políticos? É como garimpar algo oculto ou são exageros evidentes nos poderosos?

Os políticos estão sempre no primeiro plano da cena e são desafiados a se expressar num tempo muito curto sobre os assuntos mais graves do mundo, sob uma tremenda pressão midiática. Isso faz com que eles caiam com frequência em situações caricaturáveis. Nós, desenhistas, só colocamos no papel.

Você já teve encontros com alguns dos maiores líderes políticos mundiais, como o palestino Yasser Arafat, o israelense Shimon Peres e o ex-secretário-geral das

Nações Unidas Kofi Annan.

Como eles reagiram aos seus desenhos?

É engraçado ter a chance de encontrar as pessoas que eu desenhei. Vi que algumas delas têm mais facilidade para desenhar do que para falar. É o caso do Arafat. Ele não foi capaz de repetir a frase "eu reconheço o Estado de Israel". Mas eu passei uma folha, de feltro, para ele, que aceitou desenhar a estrela de David da bandeira israelense.

Você se considera mais jornalista ou caricaturista?

Sou as duas coisas ao mesmo tempo. Aliás, diria ainda mais: acho que sou um caricaturista que se considera um jornalista num mundo midiático no qual os jornalistas são considerados cada vez mais caricaturistas.

Como evitar a repetição, a mesmice e a perda do entusiasmo frente a situações políticas que parecem se repetir?

Veja o clima que se instalou por todos os lados depois da crise econômica mundial. Já tratei desse assunto umas 20 vezes desde 1972. Apesar disso, nunca é a mesma coisa. Na França, por exemplo, nós temos agora uma esquerda que finge não querer a redução da idade para a aposentadoria. Para nós, isso é algo inédito e, por isso, é tão interessante.

Que impacto a internet e outras novas tecnologias têm sobre o seu trabalho, sobre as caricaturas que você faz?

Quando eu tenho de procurar uma imagem de alguma figura política nova, como o britânico David Cameron (premiê mais jovem da história britânica, eleito em maio), por exemplo, eu corro ou para os jornais impressos ou para o Google. Mas, fora isso, ainda faço meu desenho sobre uma folha A4 ou A3, usando lápis grafite ou canetinhas hidrocor. Só depois envio para o jornal, pela internet. Agora, o risco da internet para a liberdade de pensamento e para a liberdade de opinião depende do uso que é feito dessa ferramenta pelos grupos de pressão e, mais precisamente, pelos grupos fundamentalistas de pressão, que são vinculados às grandes religiões. Eu, por exemplo, já estive no centro de uma grande polêmica organizada pelos cristãos. Em apenas um dia, recebi 3 mil e-mails no Le Monde. Tudo isso porque eu simplesmente imaginei Cristo fazendo um novo milagre: depois da multiplicação dos pães, a distribuição de preservativos, sob o olhar reprovador do papa Bento 16. O desenho não era ofensivo para os cristãos, mas a fatwa (decreto emitido por alta autoridade religiosa, normalmente no Islã) muito bem orquestrada fez com que milhares de fiéis dos EUA e do Vaticano reagissem. Hoje, esse magnífico trabalho de manipulação é feito diariamente. É só ver o caso recente do ilustrador francês Siné, que foi demitido do Charlie-Hebdo (jornal satírico francês) por causa de um fatwa semelhante que acabou colocando-o quase no mesmo nível de um Goebbels (ministro da propaganda de Hitler). Se o ilustrador não é defendido por um redator ou um chefe que tenha colhão, ele está mal.

Você realizou exposições dos seus desenhos em lugares tão improváveis quanto o Sudão, palco de um dos maiores conflitos étnicos do mundo, e o Sri Lanka, que até há poucos meses lutava a guerra civil mais antiga da Ásia. Por que escolheu esses lugares?

Foi pelo aprendizado, para conhecer melhor esses países. Lembro que, no Sudão, a textura do papel era tão esquisita que um ilustrador da capital, Cartum, me mostrou que ele conseguia desenhar numa página na segunda-feira e no verso na terça-feira. No Irã, encontrei ilustradores submetidos aos tribunais islâmicos, sentenciados a prisão e a execução a tiros.

Qual sua expectativa para a exposição no Brasil?

Desde 1986 já expus meus trabalhos cinco vezes no Brasil e tive a chance de aprender muito com meus amigos desenhistas brasileiros. Que talento! E que simplicidade no trabalho. Houve recentemente uma exposição em Reunião (ilha francesa no Oceano Índico) que teve como título a frase de Chico Caruso "deixe seu lápis pensar".

Brasil e França apostam numa grande aproximação estratégico-militar. Isso já foi objeto de cartuns seus. Como vê este momento entre os dois países?

Tudo que pode aproximar o Brasil e a França é positivo. Vocês não imaginam até que ponto a imagem do Brasil é maravilhosa na França. Os franceses são apaixonados pelo encanto dos brasileiros, ou das brasileiras. Quando a França vende armas, eu não fico particularmente entusiasmado, mas sei que é para o Brasil, então fico tranquilo. Talvez esteja errado?

Quem ganha a Copa da África: França ou Brasil?

Uma vez, na Grécia, encontrei com o Pelé e conversamos muito sobre futebol. Eu sempre assisto aos jogos da Copa do Mundo e desejo para todos os times um grande espetáculo. Mas, você sabe, eu sou francês e acho que o nosso time é muito bom. Vejo os times do Brasil, da Argentina, da Espanha e da Inglaterra, e fico ao mesmo tempo impressionado, preocupado e admirado. No fundo, existe uma certeza: a França estará nas semifinais. Depois, veremos. Afinal, eu só desenho balões (de diálogo), não bolas de cristal.

QUEM É JEAN (PLANTU)PLANTUREUX

CARTUNISTA FRANCÊS

Nasceu em Paris, em 1951. Tentou estudar medicina, mas abandonou o curso em 1971. No ano seguinte, publicou sua primeira charge no Le Monde, aos 21 anos, criticando a Guerra do Vietnã. Expôs pela primeira vez em São Paulo em 1993.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.