Resgate das cores de Bandeira

Em Paris, Unesco devolve cores à obra de Antonio Bandeira Pintor nordestino morto na França em 1967 é objeto da exposição Um Brasileiro em Paris, que tenta recuperar a vida e o legado do artista abstrato

Andrei Netto, O Estado de S.Paulo

17 de abril de 2010 | 00h00

Pense em pintores brasileiros com telas reconhecidas no exterior, que conviveram com mestres de sua época e, sobretudo, que tenham sido bem-sucedidos no desafio de deixar um legado consistente para a história da arte. Pois acrescente à sua lista o nome de Antônio Bandeira. Se a referência não lhe diz nada, não se recrimine. Você faz parte do público que a Unesco e a Embaixada do Brasil tentam captar com a mostra Um Brasileiro em Paris, dedicada ao pintor abstrato morto em 1967, coberto de sucesso, na capital francesa.

 

Veja galeria de imagens do artista (Antônio Bandeira)

A exposição está em cartaz até dia 30, no espaço Maison de l"Unesco, na sede da organização, em Paris. Seu desafio é recuperar do ostracismo e do desconhecimento o trabalho de um pintor que, em seu apogeu, foi admirado no meio artístico no Brasil, na França e nos EUA.

A mostra se baseia em um intervalo de 20 anos, entre 1947 - um ano após sua chegada a Paris - e 1967, quando morreu. Esse ínterim é retratado em seleção de 40 obras, óleo sobre tela e aquarelas, que refletem a complexidade de suas técnicas, o fascínio pelas cores e a perícia no seu trato, traços que lhe garantem a originalidade.

Pintor autodidata, Bandeira nasceu em Fortaleza, mas transferiu-se jovem, aos 23 anos, para o Rio. Em 1945, teve o talento premiado duplamente, ao expor no Instituto dos Arquitetos do Rio e ao receber uma bolsa de estudos na França.

Em Paris, entre 1946 e 1950, amadureceria como pintor ao cursar a Escola Superior de Belas Artes e a Académie de la Grande Chaumière, mas também ao aproximar-se de pintores como Camille Bryen e Wolfgang Schulze, ou simplesmente Wols. Os laços de amizade e a empatia intelectual levam os três a fundarem o grupo Banbryols, que logo se imporia como movimento moderno relevante entre 1949 e 1951.

Elegância. Depois de flertar com o cubismo, que praticara com personalidade própria e linhas elegantes, Bandeira encontrou o seu caminho na pintura abstrata. Obras como Natividade (1949), Les Clochards (1949) e La Grande Ville (1950) testemunham a criatividade de sua primeira fase, já marcada pela temática que lhe seria cara por toda a carreira: o homem - e suas desigualdades -, as paisagens urbanas e a natureza. Também são destaques da mostra obras como La Ville Bleue (1958), Printanier (1965) e Cité (1968), para citar exemplos esparsos em meio a um conjunto marcante.

Montada com obras emprestadas de coleções privadas e de instituições do Rio, de Fortaleza e de Salvador, a exposição não se limita a apresentar o seu trabalho, mas também traz à tona flashs de sua vida, captados em cartas, fotografias, jornais de época, convites de mostras, entre outros materiais de divulgação.

Para o público interessado em descobrir mais, há também um catálogo bilíngue assinado por Vera Novis, comissária da exposição, com prefácio do crítico de arte francês Patrick-Gilles Persin. Especializada no pintor, Vera reconhece a falta de conhecimento do público a seu respeito. "Bandeira era muito conhecido em Paris nos anos 50 e 60. Mas ele morreu muito cedo e não deixou quem acompanhasse de perto seu trabalho, que cuidasse de sua obra durante os últimos 30 anos", diagnostica a comissária, que não se contenta em lamentar a notoriedade perdida pelo brasileiro e trabalha para reconstituí-la. "Acredito que essa exposição seja capaz de levar à redescoberta da obra de Bandeira."

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