Resgate da infância. Entrevista com Yan Samuell

Yan Samuell diz que fez A Guerra dos Botões como reação ao consumismo

LUIZ CARLOS MERTEN, O Estado de S.Paulo

08 de julho de 2012 | 03h10

Yan Samuell já trabalhava há bastante tempo no projeto de adaptação de A Guerra dos Botões, quando outra empresa produtora da França anunciou que também ia fazer sua versão do livro famoso de Louis Pergaud. 'Eles' - os outros - pressionaram por salas e datas. Tinham mais dinheiro, mas o filme de Samuell teve mais público - e melhores críticas. De Paris, por telefone, o diretor explica por que A Guerra dos Botões virou tão importante para ele.

Desde a primeira versão de Yves Robert, em 1960, houve mais três. Como explica o interesse por A Guerra dos Botões?

De minha parte, e só posso falar por mim, quis fazer o filme como uma reação. Você vai perguntar a quê? Tenho filhos, e tentei criá-los, não exatamente do mesmo jeito que fui criado, mas estimulando a leitura, as brincadeiras, o companheirismo. Percebo hoje na França, e imagino que no Brasil não seja muito diferente, que a infância está sendo roubada das crianças. Laptop, videogames, tênis de grife. A garotada hoje em dia representa um segmento do consumo. E, para se preparar para o mercado de trabalho, é preciso sobrecarregá-las com cursos. Nada da deliciosa vadiagem de jogar bolinhas de gude na praça, de participar da guerra dos botões. Pode haver algo de nostalgia nisso, mas fiz A Guerra dos Botões em defesa da infância de meus filhos e netos.

O filme de Yves Robert virou

clássico, e em plena nouvelle vague, mesmo sendo contra a corrente daquela época. A que

se devia isso?

A nouvelle vague estabeleceu um modelo de produção, um método de realização. Seus diretores quase não trabalhavam com adaptações, exceto muito livres. Creio que a ousadia de Yves (Robert), naquele momento, foi que ele, usando seu prestígio de ator, trouxe figuras conhecidas, em pequenos papéis, contracenando com garotos que nem eram profissionais. E Yves captou o encanto do livro, seu espírito libertário.

Foi difícil encontrar os garotos para os papéis?

Tão difícil quanto encontrar a cidadezinha, na região de Limoges, e assim mesmo tivemos de maquiá-la para dar o aspecto correto de época. O elenco infantil me tomou um ano. Convivi muito com os garotos. Até hoje trocamos e-mails, estou no Facebook de quase todos, sou o 'tio' confidente.

Seu filme estreia no Brasil

com o novo Homem-Aranha.

O que acha disso?

Meus garotos não são super-heróis, mas são heróis das próprias vidas. E o processo de amadurecimento, a transformação do garoto em homem, que já estava na trilogia de Sam Raimi, é essencial na vida de qualquer um. Alguns chegam lá, outros permanecem infantis.

O irmão que volta da guerra não havia no filme de Robert. É coisa sua?

Também não existe no livro. Num filme sobre uma guerra de mentira, que atravessa gerações de combatentes em duas cidadezinhas, achei que valeria colocar o sobrevivente de uma guerra de verdade. Tenho muito orgulho da cena, e do personagem. Cria uma metáfora forte.

Seu filme estreia na mesma época de O Pequeno Nicolas, há dois anos. Visa ao mesmo público infantil, em férias. Isso lhe diz alguma coisa?

Os personagens são crianças, temos a vida no bairro, como a da pequena cidade. Mas são diferentes. Achei Nicolas bem produzido, com muita coisa bonita, mas me decepcionou que puxasse tanto para o realismo. Queria que tivesse mais do espírito de Goscinny e Sempé.

Estranho, porque seu filme confere um peso grande aos adultos, não?

Entendo que possa parecer contraditório, face ao que disse, mas o livro de Pergaud já tem 100 anos. Mesmo quando reproduz o universo infantil, é mais realista. Quis respeitá-lo.

E a menina integrada ao grupo?

A condição da mulher mudou nas últimas décadas. Achei que o filme tinha de refletir isso.

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