Resgatadas crônicas de Lima Barreto

O tempo ainda é o principal benfeitor no árduo caminho de reconhecimento da obra do escritor Lima Barreto (1881-1922). Apontado por alguns, enquanto ainda vivo, como provinciano e recalcado, o autor carioca desfrutou um certo reconhecimento no fim da vida, mas foi a organização de seus romances, na década de 50, que ressaltou a importância de livros como Triste Fim de Policarpo Quaresma e Clara dos Anjos. O passo seguinte foi dado no ano passado, quando as pesquisadoras cariocas Beatriz Resende e Rachel Valença iniciaram o inédito trabalho de recuperação das crônicas de Lima Barreto."Já catalogamos 325 textos, dos quais, para nossa surpresa, constam 15 que nunca foram publicados em livros", comenta Beatriz, professora de Literatura Comparada da Universidade Federal do Rio de Janeiro. "Ao organizar, foi possível aprofundar a importância do escritor como crítico contundente de uma sociedade elitista." As crônicas serão editadas em dois volumes - o primeiro terá os textos escritos entre 1900 e 1920 e o segundo, os de 1921 e 1922, quando Barreto produziu mais. O lançamento deverá ser no segundo semestre, pela Artium, pequena editora que vem marcando presença com títulos importantes (reeditou, por exemplo, livros de Cornélio Pena).A descoberta dos inéditos foi possível quando as pesquisadoras decidiram fazer a catalogação por ordem cronológica para dar um sentido histórico ao escritor. O procedimento permitiria não apenas garimpar todas as crônicas, como estabelecer um sistema mais econômico de notas explicativas. "Na única antologia existente, organizada por Francisco de Assis Barbosa nos anos 50, o critério não foi temporal e, apesar da densidade do trabalho, notamos a ausência de algumas crônicas", comenta Beatriz.As pesquisadoras levantaram algumas hipóteses sobre a falta. Uma delas diz respeito à delicada situação da época, marcada pela guerra fria. Em uma das crônicas, intitulada A Minha Alemanha e escrita em 1919, Lima Barreto desenrola uma série de elogios ao país que, naqueles anos 50, ainda estava marcado pela beligerância. "Provavelmente, o professor Barbosa temeu pela repercussão negativa que o texto provocaria", presume Beatriz.O trabalho de ordenação exigiu muita persistência - além de ter escrito para diversos periódicos, Lima Barreto publicava a mesma crônica em órgãos diversos e com títulos diferentes. Beatriz e Rachel, auxiliadas por André Luís dos Santos, pesquisaram na Biblioteca Nacional, no Rio, e no acervo particular do bibliófilo José Mindlin, além de consultar a correspondência do escritor.Correção - "Barreto era preocupado com a posteridade, pois deixou organizados diversos originais que, além de contar com uma sugestão de título caso fossem publicados, estavam devidamente separados e amarrados com barbantes", conta Rachel, filóloga da Fundação Casa de Rui Barbosa, outro local de pesquisa. Sua tarefa inicial foi corrigir os textos coletados em jornais e revistas, a maioria com abundantes erros gramaticais e de impressão. "Não havia tanta preocupação com a correção do texto", observou.Já na decifração dos manuscritos, as pesquisadoras contaram com o apoio de Antônio Noronha Santos, amigo com quem o escritor manteve uma longa troca de correspondência e autor de diversas anotações laterais nos originais, que desvendaram o significado das curvas caligráficas de Barreto. Outra dificuldade que se impôs foi a profusão de pseudônimos adotados pelo escritor, a maioria divertidos: J. Caminha, Stegônia, Ruy de Pina, Jonathan. Foi preciso fazer um mapeamento a partir da repetição das crônicas em diversas publicações. "O assunto até interessou Carlos Drummond de Andrade, que escreveu um estudo", conta Rachel.Os pseudônimos permitiram ainda descobrir que Lima Barreto mantinha cordiais relações com os poetas parnasianos, a quem atacava estilisticamente. Uma das pistas mostrou, por exemplo, que o escritor era um dos colaboradores de O Diabo, um tablóide humorístico no qual Olavo Bilac escrevia sob a assinatura de Diabo Coxo. "Infelizmente, ainda não detectamos qual era o utilizado por Barreto", lamenta Rachel.A análise dos textos reforçou a coerência da obra do escritor, que se destacou como um repórter impiedoso e mordaz, que atacava frontalmente os aspectos grotescos dos homens. "Ele não perdoava ninguém, desde um ministro de Estado até uma figura do povo", conta Beatriz. Como notou Antônio Houaiss, no prefácio de Vida Urbana, Barreto sempre se caracterizou por uma atitude de rebeldia, procurando, por todos os meios (a diversidade, a equivalência, o sincretismo), mostrar que a rigidez da gramática estava longe de corresponder a uma realidade viva da linguagem.A coragem, porém, custou caro e Lima Barreto sofreu por falar em nome dos humilhados com a mesma ferocidade dos opressores. Mulato e filho de família pobre, o escritor perdeu a mãe aos 7 anos e, quando estava com 22, acompanhou o enlouquecimento do pai. Abandonou em seguida o curso de engenharia para iniciar carreira na vida pública. Decidiu então assumir a literatura, apesar de escrever crônicas desde os 15 anos. "Depois de colaborar para diversas publicações, ele começou como jornalista no Correio da Manhã e, em 1905, acompanhou a célebre demolição do Morro do Castelo, que depois transformou em folhetim, recentemente publicado pela Editora Dantes", comenta Beatriz.Aos poucos, Barreto impô-se como um retratista do Rio de Janeiro, disposto a desvendar o estado de espírito de seus habitantes. "Ele se apaixonava pelos temas que escolhia, como os processos contra assassinos de mulheres, assunto que acompanhou obsessivamente pelos jornais", observa Beatriz. A crítica direta e o tom virulento de suas crônicas, porém, contribuíram para aumentar a antipatia de alguns leitores.A publicação de Recordações do Escrivão Isaías Caminha (1909), nitidamente inspirado na observação dos colegas do Correio da Manhã, foi recebida com um silêncio hostil. Idêntica sorte teve Numa e a Ninfa (1915), romance calcado em figuras políticas. Só conseguiu editar Triste Fim de Policarpo Quaresma", no mesmo ano, às suas expensas. Nessa época, tornaram-se rotineiras suas internações no hospício, onde tratou de problemas psíquicos provocados pelo alcoolismo."Mesmo sofrendo, Lima Barreto manteve, nessa época, uma incrível coerência em seus textos, escritos com um estilo mais simplificado e na ordem direta", comenta Rachel, admirada com o alcance social e humano de sua resistência, que agora emerge de suas crônicas.

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