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Laura Greenhalgh
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Réquiem pour Pleyel

A mensagem chegou em duas linhas: "Pleyel, a lendária manufatura francesa, cujos pianos eram os favoritos de Chopin e Ravel, acaba de anunciar que fechará sua fábrica, após dois séculos de produção". William Daghlian, pianista brasileiro radicado em Nova York, não se deu nem ao trabalho de escrever um preâmbulo (do tipo "e aí, tudo bem? Viu isso?") ao disparar a notícia por e-mail, extraída de um site americano, dias atrás. Quando a mensagem pipocou na tela do computador da destinatária, fez-se o baque.

Laura Greenhalgh,

23 de novembro de 2013 | 02h18

A pianista amadora, amiga das antigas de William, nem estava em São Paulo quando leu o inesperado anúncio fúnebre. Estava no sul do País, trabalhando na profissão que um dia escolheu para si, em vez da música. Estava, portanto, longe do ombro do remetente, que a consolaria. E longe do companheiro de vida, 88 teclas que lhe sorriem há 30 anos.

Tudo começou nos anos 80, quando William soube que a amiga procurava por um piano meia cauda. Ela havia vendido um ainda maior, da casa dos pais, e ansiava por algo mais compacto, usado, bom o suficiente para uma pianista bissexta, com dois filhos pequenos para criar. "Minha irmã vai se mudar e precisa vender o Pleyel. Você se interessa?", perguntou-lhe William, também produtor musical e professor de piano nos EUA. A amiga topou. Em questão de dias, desembarcava em sua casa o garboso caixa preta, de pernas bem torneadas.

Travaram parceria imediata - o Pleyel e a pianista. Os meninos cresceram, de vez em quando martelando estripulias num teclado que encontrava sossego nos recitais solitários, e reclusos, da mãe. Daí veio o fim do casamento, a família mudou de endereço, a vida se reconfigurou e o mundo deu cambalhotas. Um belo dia, um conhecido regente foi apresentado ao Pleyel, num jantar oferecido pela pianista das horas vagas. "Você deve saber que, ao contrário dos vinhos, pianos envelhecem mal. Melhor passar este piano nos cobres. Nem vale muito", sentenciou o dono da batuta, num característico arroubo de sinceridade. E desprezou por completo aquele grand seigneur, nascido em algum lugar do passado.

Por sugestão de uma amiga, a pianista chegou à melhor oficina de restauro de São Paulo, empresa familiar que ainda hoje cuida dos pianões que se exibem pelos palcos da cidade. Recebeu um diagnóstico animador para o instrumento que não mais segurava afinação, especialmente depois de ter sido içado para o décimo andar de um prédio, na tentativa de entrar, aos trancos, pela janela da sala. Havia cura, logo, esperança. "Por acaso sabe em que ano ele foi construído? Esta informação nos ajudaria", disse-lhe o restaurador.

Num par de horas, a pianista mandava o primeiro e-mail para a famosa Maison Pleyel, localizada na não menos famosa rue du Faubourg Saint-Honoré, em Paris. Contou a um certo Monsieur Gambin que tinha um piano da grife, datado de não sei quando. Que, com os filhos criados, batera-lhe a vontade de voltar a estudar. Que decidira restaurar o instrumento, resistindo ao impulso de trocá-lo por um piano asiático tinindo de novo, mas desprovido de alma. Monsieur Gambin teve que ler um romance de vida antes de responder: "Chère Madame, no lado interno da lateral ondulada do seu piano, há um número. Verifique e nos informe". Dito e feito, lá estava o número de série, 117533, imediatamente dado a conhecer. Dias depois, a descoberta: "Chère Madame, seu instrumento foi fabricado em 1897".

Merci, Monsieur Gambin! Mãos à obra. O restauro previsto para durar dois meses arrastou-se por sete. E a conta saiu bem mais salgada do que o investimento num desses teclados eletrônicos que imitam até barulho de chuva. O bom Pleyel foi inteiramente desmembrado, tecla por tecla, martelo por martelo, corda por corda, feltro por feltro, como um puzzle ao contrário. Trabalho fadado a não ter fim, mito de Sísifo revisitado, espera doída que levava a pianista a tomar o carro, aos sábados pela manhã, e seguir até um galpão na Zona Leste da cidade, só para visitar o paciente na UTI.

Passavam algum tempo lado a lado, em silêncio cúmplice. Numa de suas súplicas pelo fim do restauro, a pianista atormentada ouviu do dono da oficina: "Não reclame tanto. Está vendo aquele senhor? É o nosso funcionário mais antigo. Se o cliente o pressiona para entregar o instrumento, e ele acha que o serviço não acabou, some com as peças...". Pânico. E se o homem sumisse com parte do teclado ? Ou surrupiasse o pedal abafador? Passou a sofrer calada.

Um dia a pianista fora de forma recebeu um telefonema da oficina. Sim, poderia ir até lá. "Ver com meus olhos? Meu Deus, o que houve? Estou indo." Os marceneiros haviam começado a retirar a pátina preta, quebradiça e descorada do piano, que seria substituída por outra, reluzente. E assim chegaram à pele do instrumento: madeira de tez acetinada, fundo rosado, veios negros. Não havia dúvida: era jacarandá. "Monsieur Gambin, é possível? Um Pleyel do século 19, que consta do livro de tombo da manufatura, com caixa em jacarandá, quiçá baiano?!". Gambin convocou outro especialista da maison, um certo Monsieur Beauquier, para explicar à consulente: "A maior parte dos pianos saíram dos nossos bosques. Mas, sim, tivemos belos instrumentos feitos com a preciosa madeira sul-americana. Chère Madame, desista do laqueado preto. Deixe seu Pleyel au naturel".

Com a raspagem da madeira, descobriu-se a linda assinatura em monograma dourado - Wolff & Pleyel - que Monsieur Gambin também havia sugerido procurar. A manufatura foi fundada em 1807 por Ignaz Pleyel, discípulo de Haydn. Continuou com seu filho Camille, amigo de Chopin. Camille Pleyel, grande pianista também, foi sucedido por Auguste Wolff, que introduziu inovações técnicas importantes (como a estrutura metálica que sustenta as cordas, substituindo a de madeira). Depois veio Gustave Lyon, engenheiro acústico, com depurações sonoras - o cantabile que se consegue nos agudos de um Pleyel é algo raro... E, em 1927, inaugurou-se em Paris a Salle Pleyel, que continuará sendo um dos templos da música clássica. Não vai cerrar as portas.

Mas a fábrica de Saint-Denis, no subúrbio, fechou. E os últimos 14 funcionários foram demitidos. Como consolo, Paris ganhará uma nova estação de metrô - a Saint-Denis-Pleyel - na linha 14. E vida que segue. "William, amigo querido, agradeço o envio da notícia. Que tristeza... Não sei se sabe, mas assino uma coluna no jornal. A próxima será um adeus à fábrica de Saint-Denis".

A pianista e seu Pleyel confabularam muito nos últimos dias. Foi-se a manufatura, mas você, senhor desta sala, devolvido ao seu vigor musical, ainda vai viver muito. E tem mais: como ensinaram nossos índios nestes tristes trópicos, jacarandá é madeira que não enverga.

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