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Réquiem para uma casinha amarela

A casa está inclinada, apoiada no vizinho. Mas quando o prédio terminar, esses apoios serão retirados. Portanto, essa é a crônica da morte anunciada

Ignácio de Loyola Brandão, O Estado de S. Paulo

02 de agosto de 2019 | 02h00

Cada vez que um morador da Rua João Moura passa diante da casinha amarela, espremida entre as obras de dois espigões, olha e calcula quando ela vai entregar os pontos, quanto tempo terá de vida. Exangue, parece resistir e não sabemos onde busca forças. Uma parte da grossa fachada se foi, a lateral está sendo suportada por cabos de ferro, que se apoiam no edifício vizinho, que vem sendo construído com espantosa rapidez. Como um navio agonizando em um porto.

Quando vimos que uma fileira de sobradinhos típicos dos anos 1940 e 1950 começaram a ser vendidos e demolidos, percebemos que estava chegando um prédio (acabaram sendo dois) e todos ficamos esperando, porque a casinha amarela continuava impávida. Todos venderam, menos o proprietário da casinha amarela. Dizem que pertence à paróquia de São Paulo da Cruz dos padres passionistas, cuja igreja, de 1926, está na Praça Benedito Calixto. 

Nunca soube o que a casinha era. Sabíamos que funcionava às vezes como um centro social, víamos encontros de alcoólatras, outra vezes servia de albergue noturno. De repente ficava fechada. Houve época em que as carrocinhas dos apanhadores de papel e de ferro velho ficaram estacionadas na frente.

De repente, a casa esvaziou de vez e coincidiu com a chegada das construtoras. Tudo foi demolido em volta, menos a casinha impávida. 

Ninguém entendia. Problemas com herdeiros, inventários, é um bem público? É o quê? Até se falou em tombamento, Patrimônio Histórico. Como a casinha resistia? Tinha sido de família poderosa? 

Todos lembraram uma casinhola que havia na esquina da Rebouças com a Henrique Schaumann, quando uma lanchonete multinacional comprou tudo. Menos a casinha. Que ali permaneceu por décadas, arruinando-se lentamente, até que um dia desapareceu. Teria o mesmo destino a nossa casinha?

No entanto, construção é construção e tem um preço. Vieram os bate-estacas barulhentos (em pleno século 21 ainda se bate estaca como nos anos 30, cadê a tecnologia?). A pressão sobre o terreno sugou as forças da casinha e uma parede se foi. O que está ali me lembra certas casas de Berlim Oriental, na época do muro, abandonadas e em ruínas. Eram de famílias que tinham conseguido fugir para o Ocidente em 1961, quando fecharam as fronteiras e nunca mais conseguiram voltar. Quando o muro caiu, muitos proprietários já tinham morrido e as documentações enfrentavam enorme burocracia, parecia conto do Kafka. Não confundam, Kafka, não Kafta, a comida árabe.

A casinha está inclinada, apoiada no vizinho. Mas quando o prédio terminar, esses apoios serão retirados. Portanto, essa é a crônica da morte anunciada. E me veio uma lembrança forte até hoje. Na década de 70 frequentei muito a cidade mineira de Boa Esperança, em Minas Gerais. Cidade celebrizada por Lamartine Babo com a canção Serra da Boa Esperança, clássica.

Pois um dia, Furnas anunciou à cidadezinha que estava desapropriando casas e que certa região seria tomada pelas águas de uma represa. Mil acertos. Só não conseguiram a casa da Dula, uma das mais célebres tecedeiras da região. Elas teciam a lã que comprávamos ainda no carneiro, faziam mantas, colchas, roupas. Dula disse que não saía, e não saiu. “A casa vai cair, não vai suportar, suplicavam os engenheiros. E ia mesmo, era toda capenga. Ela garantiu que Nossa Senhora das Dores, padroeira da cidade, ia segurar sua casa.

Como Dula era um patrimônio, acabou sendo feito um acordo, toda a cidade ao lado dela. As águas da represa chegaram à porta de Dula. Por anos, fiscais verificavam as condições da casa, preocupados. Até que um dia, Dula morreu. Centenas de pessoas foram ao enterro. O féretro saiu e quando estava a uma distância conveniente, a casa inclinou-se lentamente e se acomodou no terreno. Morta.

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