Réquiem para um gênio fashion

Desfile em Paris celebra última coleção de Alexander McQueen

Jess Cartner-Morley, O Estadao de S.Paulo

14 de março de 2010 | 00h00

Durante 15 minutos da última terça-feira, num grande salão de teto branco, enfeitado com detalhes dourados, Alexander McQueen voltou à vida. Uma audível inspiração coletiva de ar se seguiu à entrada no espaço do primeiro modelo. Quatro semanas após a morte do estilista, a coleção em que ele estava trabalhando era por fim apresentada.

E seu espírito estava bem ali - na casquete de bandagens repartida por um moicano de plumas laqueadas; nas botas pretas ferozes com anjos dourados esculpidos nos calcanhares; no poder muscular do corpete carmim justo; e na maneira como a saia pregueada e arrufada parecia ter vindo não do passado ou do futuro, mas de alguma outra dimensão onde os dois se encontram. Cada peça foi cortada por McQueen, o público foi informado; e não houve quem duvidasse disso.

Dos trajes, 16 estavam 80% prontos - eles foram completados por sua equipe e vistos pela primeira vez na terça-feira. A coleção era realmente espetacular: o clima, em face das evidências do que a moda perdeu, era melancólico. Não há nenhum precedente ou protocolo para apresentar na passarela um desfile que também é serviço fúnebre. Sete pequenas apresentações estão sendo realizadas. Cerca de 70 pessoas viram as roupas - e o público na primeira apresentação de terça-feira contava com um bom punhado de editores de moda e Roger Polet, o chefe do Gucci Group.

O desfile de McQueen em outubro de 2009 era sobre o futuro. Ele tomava a evolução e a perspectiva de um desastre ecológico como pontos de partida para estampas digitalizadas como peles de répteis e estranhos sapatos "tatu", posteriormente celebrizados por Lady Gaga. Os modelos eram perseguidos ao longo da passarela por câmeras que transmitiam o desfile ao vivo.

Num contraste agridoce, sua inacabada última coleção olhava para a arte bizantina, falava de eternidade e de anjos. Nas dobras duplas de cetim duquesa, num vestido curto de cintura fina, poderia se vislumbrar o menino Jesus, extraído de Virgem com o Menino, pintura de 1450 de Jean Fouquet, capturada e manipulada digitalmente.

Um vestido de chiffon de seda claro esculpido como uma deusa de mármore grega, mas tão diáfano que varria o piso em silêncio, exibia as faces de anjos e as asas de pombos; nas costas via-se o contorno de asas angelicais. Na obra do mestre entalhador Grinling Gibbons, McQueen encontrou detalhes que traduziu em sapatos de imitação de crocodilo com saltos de madeira dourados, esculpidos à mão em colunas elaboradas de hera retorcida, enfeitadas com bolotas de carvalho. Um manto vermelho, cortado para revelar o vestido flutuante por baixo, parecia trazer ecos da maneira como, na Anunciação de Cestello, de Botticelli, Maria abre seu manto azul com o braço para revelar um vestido vermelho por baixo.

Houve momentos eletrizantes, como quando a luz do sol de Paris bateu no salto esculpido de uma botinha revelando um entalhe de um crânio quebrado. O crânio tornou-se uma espécie de marca registrada de McQueen, mas aqui ele parecia esmagado. Em outros momentos, o interesse de McQueen pela arte do século 15 parecia residir na solenidade holandesa de Hugo van der Goes e no surrealismo primitivo de Hieronymus Bosch. Mas havia também as madonas de rosto doce e querubins de pele acetinada de Botticelli e Fouquet. Um casaco cortado de plumas douradas laqueadas era provavelmente outro aceno a Gibbons, cujos entalhes realistas de pássaros emplumados causaram grande admiração por muito tempo. No contexto, porém, ele não poderia deixar de trazer à memória a história de Ícaro, que voou perto demais do sol.

Futuro. Se esta foi a última coleção de Lee Alexander McQueen, não será com certeza a última a exibir seu nome. Uma semana após a morte do estilista, Polet anunciou que a grife não será extinta. "Acreditamos no futuro da marca", disse ele aos repórteres, sem anunciar o nome de um possível substituto para McQueen. No fim de semana, boatos de que o grupo Gucci estaria negociando com o jovem e ousado estilista britânico Gareth Pugh foram negados por ambas as partes. A equipe de estilistas da casa segue trabalhando na finalização de peças masculinas e coleções secundárias que estavam em produção antes da morte de McQueen.

Para que um desfile de Alexander McQueen esteja pronto até outubro, será necessária rapidamente a indicação de um novo estilista. Já se fala, porém, que um hiato de uma temporada pode ser necessário. O olhar da indústria da moda está voltado para Sarah Burton, estilista-chefe da marca, que trabalhou em parceria com McQueen por 16 anos. Ela é agora a mais graduada dentre os cinco membros remanescentes da equipe. Mas a Gucci garante que nenhuma decisão foi tomada. Todos os esforços tem sido direcionados para a finalização desta coleção. Como disse um membro da equipe no desfile, "queríamos apenas que Lee ficasse orgulhoso".

Uma nota entregue a cada membro da plateia trazia a seguinte mensagem: "Cada peça mostrada é única, assim como ele o era". Quando o 16.º modelo desapareceu da passarela, a plateia permaneceu em silêncio, como se não estivesse pronta para que o feitiço fosse quebrado. O barulho das palmas começou nos bastidores e se espalhou pelo ambiente. Não há dúvida de que a última coleção de Alexander McQueen foi um triunfo. Mas é estranho não ter ninguém para cumprimentar.

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