Réquiem para lembrar a eternidade

Coro francês Accentus mostra a obra-prima de Fauré na Sala São Paulo

JOÃO MARCOS COELHO, ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

30 de setembro de 2011 | 03h07

"Disseram que meu Réquiem expressa o pavor da morte, alguém chamou-o até de berceuse (canção de ninar) da morte. Mas é assim mesmo que eu sinto a morte: como uma libertação feliz, uma aspiração à felicidade do Além muito mais do que uma passagem dolorosa." Foi com estas palavras que o compositor francês Gabriel Fauré (1845-1920) reagiu às críticas à primeira execução de seu Réquiem na igreja parisiense da Madeleine, em 1888. Pela leveza e um inesperado sentimento de paz, serenidade e até pitadas de alegria disfarçada, ele forma, ao lado do Réquiem inacabado de Mozart, o par de obras fúnebres mais conhecidas do repertório sacro. Fauré era indiferente ao catolicismo. "Seu Réquiem não é litúrgico", diz o pesquisador François-René Tranchefort no Guia da Música Sacra (Fayard, 1993). "Ele acompanha a alma em direção a sua consolação, sua eternidade."

Pois é com esta obra-prima que o coro de câmara parisiense Accentus apresenta-se hoje e amanhã na Sala São Paulo, na temporada 2011 da Sociedade de Cultura Artística. Em curtas duas décadas de existência, já conquistou prestígio mundial, graças ao notável trabalho de sua regente Laurence Equilbey, focado tanto nas obras chaves do repertório coral quanto na música contemporânea e na transfiguração de obras de outros gêneros, incluindo o sinfônico, em transcrições para as 32 vozes que o compõem. Accentus é coro residente da Ópera de Lyon, onde Equilbey começa a firmar-se como regente sinfônica. Uma indicação para o Grammy de 2005 pelo CD Naïve Transcriptions - incluindo a transcrição para coro a capela do Adagietto da Quinta Sinfonia de Mahler - abriu-lhe as portas para uma década de muitos prêmios internacionais.

Ao seu lado, estarão a soprano Mireille Delunsch, que já cantou em São Paulo e no Festival de Ópera de Manaus, e o baixo-barítono Matthew Brook, além dos 43 músicos de uma excepcional orquestra de porte quase clássico, o Ensemble Orchestral de Paris. Com 33 anos de existência, o grupo também é um diferencial na vida musical europeia, empenhando-se no repertório tradicional e na prática da música contemporânea. John Nelson foi seu maestro titular, e ainda é seu regente honorário.

Muitos biógrafos e pesquisadores repetem que Fauré teria composto a maior parte do Réquiem nos primeiros dias de 1888 profundamente chocado pelas mortes relativamente próximas de seu pai e sua mãe. Jean-Michel Nectoux, no mais recente estudo exaustivo de vida e obra do compositor (Fayard, 2008), contesta esta hipótese, negando qualquer relação entre a perda dos pais e a intenção de compor um réquiem. Nectoux cita uma carta de Fauré a Maurice Emmanuel, em que diz: "Meu Réquiem foi composto para nada ... para o prazer, ouso dizer!".

De fato, a obra foi completada aos poucos e existem várias versões até a final, de 1900. Em 16 de janeiro de 1888, por exemplo, Fauré já tinha prontos os manuscritos do Introito, Kyrie, Sanctus e Pie Jesu, Agnus Dei e In Paradisum. E no fim do mesmo mês essas partes foram executadas na Igreja da Madeleine, onde ele era organista, acompanhando uma missa fúnebre por um ano de morte de um paroquiano anônimo.

Versão. O efetivo orquestral era modesto: algumas cordas (violas, violoncelos, contrabaixos, além de um violino solo no Sanctus), uma harpa, timbales e órgão. A parte de soprano solo no Pie Jesu era cantada por um menino (Louis Aubert, futuro compositor).

Uma segunda versão, incluindo já o Offertoire e o Libera Me, escritas entre 1889 e 1891, foi executada na Igreja Saint-Gervais, com orquestra aumentada (duas trompas, dois trompetes e três trombones). Em 1893, fagotes e trompetes foram acrescentados nas demais partes. Naquela altura, Hamelle, seu editor, pediu-lhe uma edição do Réquiem para grande orquestra - o que ele fez em 1899 -, com quartetos de violas e violoncelos divisi, violinos (a partir do Sanctus), madeiras, metais, harpas e timbales, além do órgão, que tece um tapete sonoro para toda a instrumentação e as vozes.

A primeira execução nesta forma mais sinfonicamente inchada e "comercial", digamos, aconteceu em 12 de julho de 1900 no Palais du Trocadéro.

Por dois dias, teremos a chance de ouvir as sonoridades mais próximas das intenções originais do compositor, graças às pesquisas de Jean-Michel Nectoux. Uma versão intimista, mais transparente. Independentemente das versões, no entanto, este Réquiem mantém um imenso prestígio popular - quem já não se encantou com a melodia do Agnus Dei? Em seu comentário sobre o Réquiem, François-René Tranchefort aponta um paradoxo nesta obra: "Quis o destino que justamente uma obra religiosa tenha feito de Fauré um compositor 'popular'".

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