Republicanos indóceis

NEW JERSEY - Foi absolutamente surreal ouvir o discurso sobre o estado da União do presidente Obama semana passada. Foi absolutamente surreal ouvir o líder do país mais poderoso do mundo se rebaixar a defender que o governo pode beneficiar a vida das pessoas. E o que Obama pleiteava era o mínimo que um governo pode e deve fazer. Ele pediu permissão ao país, e à fanática oposição republicana, para, por favor, investir mais em educação. Para crianças de baixa e média renda terem acesso à pré-escola. Para elevar o salário mínimo de US$ 7,25 para US$ 9,00. Para reformar a imigração. Para aprovar novas leis de controle de armas. Caramba! Que agenda mais ousada.

Lee Seigel,

17 Fevereiro 2013 | 02h06

Em troca, Obama colocou direitos sociais na mesa, dizendo, como tem dito, que cortes no Medicare (programa federal de assistência médica gratuita a idosos) eram necessários. Mas, mesmo com a promessa de cortar o Medicare, e com o investimento federal pífio que Obama está propondo, os republicanos continuam indóceis. Dizem que ele não está enfrentando o déficit, que está levando o país à ruína financeira, e assim por diante. A essa altura, a timidez de Obama é um traço familiar. Durante a campanha presidencial, os republicanos se revelaram tão empolgados com a ala de extrema direita do partido, que a reeleição de Obama e a rejeição aos republicanos que ela representou pareceram bastante satisfatórias.

Mas é curioso que, com todo o poder e a riqueza imensa que o establishment liberal possui, ele não seja mais criativo na defesa que Obama faz de um governo atuante e benéfico. Os liberais, que com a exceção da rede Fox, pertencente a Rupert Murdoch, realmente controlam a mídia neste país, poderiam começar com um filme longa-metragem mostrando uma América hipotética em que, como tantos conservadores gostariam, o governo deixou de desempenhar um papel nas vidas das pessoas, e nenhum cidadão americano paga impostos.

O filme começaria com um pesadelo de descontrole. A câmera faz uma panorâmica sobre casas com poços de petróleo em seus quintais (como já escrevi neste espaço, isso já está ocorrendo em algumas partes do país). Vemos vales verdejantes forrados de shoppings a céu aberto. Algumas cidades estão a tal ponto poluídas por emissões tóxicas que os habitantes precisam se guiar com a ajuda de lanternas pelas calçadas esburacadas no meio do dia. Os carros não terão mais cintos de segurança nem airbags. Os limites de velocidade terão sido abolidos de modo que, na combinação da ausência de medidas de segurança e de limites de velocidade, as ruas e estradas estarão coalhadas de mortos e moribundos.

E como não haverá hospitais públicos nem ambulâncias públicas, os moribundos terão de jazer por ali até alguém estacionar para levá-los a hospitais privados: o Hospital Google ou Hospital Facebook. Infelizmente, poucas pessoas terão tempo para estacionar. Como não haverá salário mínimo, muitos estarão trabalhando por 25 centavos de dólar por hora e terão de trabalhar 80 horas por semana para pagar as hipotecas, agora oferecidas por bancos vendidos a companhias de petróleo, que aplicam taxa de juros de 40% aos empréstimos hipotecários que fazem.

O tempo livre que as pessoas têm será consumido, sobretudo, em policiamento particular, já que não haverá dinheiro do contribuinte para financiar qualquer tipo de policiamento público. Isso significará também que as pessoas que não tiverem dinheiro para comprar armas - oferecidas por alguns bancos com empréstimo hipotecário, por uma taxa extra, claro - terão de fabricar as próprias armas, o que causará muitos acidentes. E como o sistema de saúde será privado, e os melhores médicos pertencerão aos cidadãos mais ricos que tiraram proveito do programa Compre um Médico patrocinado pela Microsoft, muitas pessoas, além de ter de fabricar as próprias armas, também terão de ser autodidatas em técnicas médicas básicas, como cirurgia cerebral e cardíaca, por exemplo.

Uma consequência positiva da falta de governo é que as crianças não terão de testemunhar a cirurgia de pontes de safena realizadas nas salas de visita de suas casas, ou seus pais se baleando acidentalmente com armas feitas em casa. As crianças com mais de 5 anos não só estarão trabalhando 80 horas por semana com seus pais - elas também estarão dirigindo as redes de TV e os estúdios de cinema já que, a essa altura, as únicas pessoas com tempo para desfrutar entretenimentos serão as crianças com menos de 5. As de 6 ou mais que dirigem a indústria do entretenimento terão uma boa noção do gosto de seu público.

Mas talvez eu esteja sendo pessimista. Provavelmente não haverá tantos acidentes nas ruas e estradas porque as ruas e estradas terão caído em tal abandono que ninguém será capaz de dirigir um veículo por elas. Com as crianças dirigindo TVs e filmes, como ninguém conseguirá pagar as taxas cobradas pelas companhias privadas de serviços públicos - agora pertencentes a uma das cem famílias governantes que possuem as companhias de petróleo que possuem os bancos - poucos conseguirão pagar algum tipo de televisor ou PC. De modo que as crianças terão mais tempo para o trabalho nas fábricas montando iPods e iPads, agora atualizados a cada hora em vez de a cada 12 meses.

Como se vê, mesmo as piores coisas têm o seu lado bom. Pensando bem, talvez um filme assim não deva ser feito. Talvez haja muitas pessoas que gostarão da ideia de um inferno desgovernado.

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