República sem ciência

Estamos na era da "terceira cultura" e o Brasil insiste em ignorar sua história da ciência, seus cientistas e as aproximações entre ciências e artes e humanidades. Está certo que o Brasil nunca recebeu um Nobel (nem de ciência nem das outras áreas, embora alguns escritores o tivessem merecido), mas passou perto algumas vezes (com Carlos Chagas e Jayme Tiomno, por exemplo, e não com Peter Medawar, britânico nascido em Petrópolis que há 50 anos recebeu o de Medicina e Fisiologia). E talvez não tenha chegado lá justamente porque dedica tanto descaso ao assunto. Quando você vê a vasta literatura sobre ciência surgida nos últimos 40 anos e pensa no caso brasileiro, onde apenas recentemente apareceram nomes como Marcelo Gleiser e Fernando Reinach, a melancolia do cotejo é inevitável.

Daniel Piza, O Estado de S.Paulo

14 de novembro de 2010 | 00h00

O vezo é mundial, eu sei, como quando se leem histórias do modernismo na virada para o século 20 que não falam em Einstein e Bohr, só no máximo em Freud (que era médico e, ao contrário do que muitos pensam, muito favorável ao conhecimento da fisiologia cerebral para o entendimento da complexidade mental - e hoje estaria deslumbrado com as novas tecnologias de escaneamento). Mas os historiadores e sociólogos brasileiros não apenas ignoram a ciência em seus retratos de época, mas também desprezam seus feitos. Nos EUA, onde há ainda tanto conservadorismo religioso, a ciência sempre teve ênfase aguda. E lá surgem iniciativas como o site Edge (www.edge.org), feito para abrigar pensamentos de autores como Damásio, Dawkins e Dennett - para ficar na letra D - que tentam ligar a cultura científica à humanística.

Fiz dois trabalhos para as editoras Dezembro e Ediouro sobre a medicina brasileira e, ainda que desconfiasse, fiquei espantado com a carência de livros e de pesquisas publicadas. Não encontrei nenhum livro abrangente e definitivo, por exemplo, sobre nossa medicina ao longo do século 20; Pedro Nava, médico e grande escritor, fez alguns ensaios e apontamentos sobre o tema, mas nos anos 50. Da colônia até o século 19, um dos poucos trabalhos sólidos é o de Licurgo dos Santos, embora de estilo datado e redundante. O único personagem razoavelmente tratado é Oswaldo Cruz, até por causa de seu papel histórico e público; o jornalista Humberto Werneck escreveu um perfil dele. Sobre Chagas, no entanto, só temos o livro do filho, naturalmente hagiográfico, e alguns álbuns comemorativos.

Uma das principais explicações para isso, além da fraqueza do nosso sistema educacional - em que a matemática, com seus conceitos tão fundamentais, tem o pior desempenho em testes mundiais - e da carência geral de método como um valor cultural, é o preconceito de nossos representantes das "ciências humanas" em relação à contribuição de seus colegas das "ciências naturais". A prova está em muitos livros sobre a história da República, que completa 121 anos amanhã, nos quais a ciência tem quase um papel de vilã, como se todos os sanitaristas fossem positivistas racistas e anti-humanistas, adoradores de Auguste Comte que queriam a eugenia mais que a higiene. Mentira.

Chagas, por exemplo, nunca se expressou nesses termos. Ao contrário: fez questão de dizer que o problema do Brasil não era a composição étnica ou o clima tropical, dois itens até hoje apontados como obstáculos para o desenvolvimento de sua civilização. Chagas dizia que se tratava de aplicar o conhecimento científico às doenças tropicais, e foi o que fez não só como descobridor da moléstia que leva seu nome, mas também como alguém que combateu em todas as regiões a malária, a leishmaniose e muitas outras. Do mesmo modo, a Revolta da Vacina, em 1904, costuma ser estudada como um surto de autoritarismo de Oswaldo Cruz, por ter tornado obrigatória a vacinação contra a febre amarela - como se sem a obrigatoriedade fosse possível resolver o problema. Não é por acaso que o Brasil ainda tem índices de saúde e saneamento degradantes; em Alagoas, quatro quintos da população não têm esgoto.

A obsessão com o positivismo, que teria sido a causa de todos os males republicanos, também explica por que esses pesquisadores não veem as particularidades de suas versões brasileiras, como Sergio Buarque de Holanda mostrou tão bem no volume Do Império à República: no Brasil, a filosofia pacifista de Comte, que defendia uma "religião da humanidade", foi distorcida para os arranjos oligárquicos que deram o golpe na monarquia. Comte está fora de moda, porque os filósofos da ciência do século 20 derrubaram sua utopia determinista e hierarquizante, mostrando as incertezas da verificação experimental (o que não tem nada a ver com justificar a crença no improvável). Mas ele não é culpado pela exclusão social brasileira...

Pelo mesmo motivo, os críticos literários insistem em não entender que Machado de Assis em O Alienista, como mostra agora Ivan Teixeira em O Altar & o Trono, não estava ironizando a ciência, mas que a ciência se comportasse como a religião ao se arrogar o controle do poder e da prisão e classificar as características morais por sinais exteriores. A arte, a propósito, quase sempre dialogou com a ciência, pois ambas podem somar conhecimento, ou ao menos uma contestação mútua e sadia. Tem sido assim da pintura de Leonardo da Vinci (que desenvolveu a veladura para ser mais fiel à percepção visual) à ficção de Ian McEwan (embora eu tenha gostado menos de Solar, sobre um físico envolvido com a questão do aquecimento global, do que de Sábado), passando pelas refrações luminosas de Rembrandt e simultaneidades angulosas de Picasso.

Precisamos resgatar o papel dos cientistas na história do Brasil e tratar muito melhor do assunto em escolas e publicações. Ainda que haja aqui e ali algumas iniciativas, com a importância de uma Fapesp, ainda há muito o que evoluir na produção e reflexão sobre ciência. Basta ver os recentes obituários na imprensa local de nomes como Martin Gardner (que desbancou tantos defensores da existência comprovada de paranormalidade e óvni) e Benoit Mandelbrot (o inventor do conceito dos fractais, que certas pessoas acham que foi uma espécie de místico das impurezas, de um intuitivo holista) para ver como o destaque da ciência é pequeno em nossa cultura. A república ganharia muito se transmitisse conhecimento e método a seus estudantes.

Rodapé. É um acontecimento a edição brasileira de O Outono da Idade Média, de Johan Huizinga (Cosac Naify, tradução Francis Petra Janssen), em volume caprichado e ilustrado. Publicado em 1919, quando a Europa ainda chorava seus mortos e o fim de sua hegemonia, o livro mudou a concepção da Alta Idade Média como um período apenas de decadência e trevas. Huizinga mostrou que nas regiões flamenga e borguinhã do século 15 havia o brilho suave de pintores e trovadores, que representavam o declínio de uma era e a ascensão de outra. Há um tom nostálgico, romântico, em Huizinga, e a leitura é fascinante também por isso. Seu estilo é bonito sem deixar de ser informativo.

Esse historiador holandês foi também um precursor das histórias de "mentalidades" (como a Escola dos Annales) pelo teor narrativo, preocupado com objetos e costumes, não tanto com os grandes esquemas e teorias. Ao mesmo tempo, não fica só na gente comum e nos pormenores. Mostra que a busca por uma vida mais bela se tornou um ideal aristocrático, uma "luz artificial", um tom cavalheiresco, que simultaneamente funcionava como escape e resistência à mudança dos tempos. E é nesse aspecto que a fronteira entre Idade Média e Renascimento fica mais turva. O amor tardo-medieval é exaltado como forma de reagir aos rigores da fé; apesar da ornamentação com que era apresentado em canções e retratos, naquele "teatro social" das classes privilegiadas, tinha uma mensagem mais profana, carnal, do que se via até Huizinga.

Ele também vai aos grandes criadores, ciente de que são expressão e exceção de sua época, como Van Eyck, que decorava com esplendor não barroco os anjos e santos, num "grau de detalhamento e naturalismo" que mostra "a tensão mais extrema da imaginação terrena do divino", a exemplo da ternura entre ascética e opulenta do casal Arnolfini. É nessas descrições estéticas no contexto histórico que está o maior atrativo do livro, que é igualmente bom na análise dos poemas trovadorescos. Herdeiros dos provençais, os autores da corte de Borgonha adicionam toques irônicos e sensuais, como no Roman de la Rose ou nos textos de Guillaume de Machaut. Por mais que Huizinga exagere na importância dada ao que seria supérfluo, não se consegue parar de ler.

Por que não me ufano (1). Fernando Haddad teria qualificação para ser um dos melhores ministros do governo Lula, mas jogou a chance fora ao cair nos mesmos vícios de seus colegas de poder: tentar sempre justificar os erros e bravatear os acertos. Poucos dias depois de sair defendendo o Brasil dos péssimos resultados no IDH, fingindo que o conteúdo não beira o desastroso, e de não reagir explicitamente ao absurdo de querer censurar Monteiro Lobato, ele enfrentou novos problemas de organização no Enem. O exame nasceu para ser de avaliação, não de admissão; para ser convertido num vestibular nacional, seria preciso fazer toda a readaptação do sistema e cronograma. A confusão é mental.

Por que não me ufano (2). Me pergunto o que intelectuais petistas diriam se o que aconteceu com o quase falido banco Panamericano, de Silvio Santos, com 49% pertencentes à Caixa, tivesse acontecido num governo adversário. O mínimo que diriam é que a máquina pública foi privatizada para interesses escusos.

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