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República da espada

Ganhamos uma república sem seguir à risca os princípios e valores do republicanismo

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

09 de novembro de 2019 | 03h00

Fomos todos enganados na infância. Além da história da cegonha e de Papai Noel, não nos informaram que a tão decantada Proclamação da República, que na sexta-feira completará 130 anos, foi um golpe militar. Mais um. Cronologicamente, o primeirão. 

A D. Pedro II não deram tempo de dizer ao povo que, em vez de ficar, como seu pai, estava saindo; ou melhor, sendo saído.

Primeiro, porque ele nem estava no Rio, na ocasião, mas em Petrópolis. Segundo, porque os militares e os civis (republicanos e abolicionistas) que o tiraram do trono tinham pressa de implantar aqui a República.

Soube ao ler os 51 textos do imprescindível Dicionário da República, organizado por Lilia M. Schwarcz e Heloisa M. Starling, recém-editado pela Cia. das Letras, que, além de não ter sido mais que “um acontecimento militar extravagante”, a proclamação da República foi deslanchada por uma fake news, solenemente desprezada pelo povão, e quase não contou com a presença de seu escalado oficiante, o marechal Deodoro da Fonseca (“perna fina, bunda seca”, caçoávamos na escola). Ironicamente, quem a oficializou foi um vereador negro.

Às 15 horas de 14 de novembro de 1889, um tal de major Sólon, de combinação com o jornalista Quintino Bocaiuva, presidente do Partido Republicano, espalhou um boato na Rua do Ouvidor, o centro nervoso do Rio, segundo o qual líderes republicanos e militares haviam sido presos por ordem da corte. Às 20 horas, o general Mena Barreto sublevou um regimento e um pelotão da Escola Militar, precipitação comparável ao levante da soldadesca de Juiz de Fora que, 75 anos mais tarde, sob as ordens do general Olímpio “Vaca Fardada” Mourão, deslancharia, antes do planejado, o golpe de 1964.

Adoentado, Deodoro, chefe do Clube Militar, fora substituído no comando da insurreição pelo marechal Floriano Peixoto, mas no dia seguinte, para surpresa geral, Deodoro compareceu ao meeting no Campo de Santana. Não queria perder o protagonismo na implantação do que logo apelidaram de “República da Espada”. Mas podia ter perdido a vida se o ministro da Marinha Imperial tivesse logrado alvejá-lo com um tiro. A arma, pateticamente, negou fogo.

Até as 14h30 daquele histórico 15 de novembro, a República formalmente não existia, era apenas uma quartelada, só legalizada quando o vereador José do Patrocínio convocou uma sessão extraordinária da Câmara Municipal para esse fim. Aquelas imagens com gente do povo saudando festivamente Bocaiuva e os marechais, no Campo de Santana, eram fajutas. Quem mais fielmente retratou o evento foi o pintor Benedito Calixto. Seu quadro, expondo a baixa audiência popular da Proclamação, está no Masp. 

O império afundou por sua própria conta, por sua incapacidade de solucionar seus problemas estruturais, argumenta a cientista social Angela Alonso, num dos melhores capítulos do Dicionário. Sem jamais penetrar nas profundezas da sociedade, o Estado imperial dobrou-se aos poderes-chave das elites locais, não educou o povo, viveu 67 anos atolado em problemas funcionais, nenhum mais complicado que a escravidão. A República saiu de suas entranhas e, “como um Saturno às avessas, devorou o pai”, na feliz imagem de Alonso.

Ganhamos uma república sem seguir à risca os princípios e valores do republicanismo (liberdade, direitos iguais, cidadania, solidariedade), não conseguimos debelar o patrimonialismo e, muito menos, a corrupção e o autoritarismo. Substituímos uma forma de governo conservadora por outra, igualmente excludente e sem nenhuma sensibilidade para as questões sociais, ressalta Starling, num ensaio revelador sobre a presciência de Machado de Assis e Euclides da Cunha, que anteviram, em seus escritos, o “mais do mesmo” republicano.

Também reveladores são os detalhes coligidos pelo professor Flávio Gomes sobre a Revolução Negra do Haiti, em 1791, e sua espantosa repercussão no Bananão. Para os haitianos, a revolta dos escravos e a consequente instauração de uma república na ilha, sob a liderança do general Toussaint-L’Ouverture, representou o fim da escravatura e a libertação do jugo colonial. Entre as autoridades coloniais e os fazendeiros daqui, a revolta dos escravos de lá repercutiu como uma espécie de revolução bolchevique ou cubana avant la lettre. Onde já se viu negro sem grilhão e dando as ordens?

Há quem não consiga falar do Haiti sem lembrar daquela composição de Caetano e Gil ou, para ficarmos na música, de uma deliciosa, mas um tanto esquecida, canção de Cole Porter (Katie Went to Haiti). Minhas referências ao Haiti mudaram neste século. Já de algum tempo o Haiti me remete, infalivelmente, ao nada musical general de pijama Augusto Heleno.

Aquele mesmo que com apenas seis palavras (“Tem que estudar como vai fazer”) coonestou, recentemente, a volta do AI-5 com que Dudu Bolsonaro - o 03, o embaixador Porcina, aquele que foi sem nunca ter sido - ameaçou nossa República. Atual ministro-chefe do Gabinete de Segurança Nacional do presidente, tipo empombado, falastrão e autoritário, mas incompetente em suas funções, ganhou notoriedade ao perder o controle sobre os 300 soldados que, em missão pacificadora da ONU no Haiti, invadiram Cité Soleil, bairro miserável de Porto Príncipe, em 6 de julho de 2005, e assassinaram ou deixaram que assassinassem 63 pessoas e ferissem outras 30. 

Encontrei mais de dez egressos daquela missão da ONU com algum cargo no Bolsonariado, até mesmo, que coincidência, um homônimo do marechal Floriano Peixoto, mas apenas general. O marechal participou de uma guerra de verdade - a do Paraguai - não de uma missão de paz que se transformou em guerra para um punhado de haitianos.

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