JF Diorio/ Estadão
JF Diorio/ Estadão

‘Reprodução’ leva a importante discussão sobre potência da literatura

Bernardo Carvalho radicaliza sua obra com uma escrita desconcertante

João Cezar de Castro Rocha- Especial para o Estado, O Estado de S. Paulo

20 Setembro 2013 | 22h12

Reprodução encantaria a Paul Valéry. Em tiro certeiro, o poeta francês afirmou: “O prazer da leitura reside em sua dificuldade”. Neste novo livro, Bernardo Carvalho radicaliza sua literatura com uma escrita particularmente difícil, desconcertante. As repetições de clichês e de séries linguísticas singularizam o romance e têm alvo preciso: a estandardização da cultura.

O fenômeno foi intuído pelo autor de Mimesis. Em carta enviada a Walter Benjamin, em 1937, exilado em Istambul, Erich Auerbach diagnosticava a emergência de “uma internacional da trivialidade e uma cultura-esperanto”. Isto é, a reprodução infinita de conteúdos estereotipados em escala planetária, fenômeno tornado possível pelas novas tecnologias. Ora, qual o futuro da literatura na “era da reprodutibilidade digital”? Eis um ensaio que Benjamin, leitor de Reprodução, poderia ter escrito.

O enredo é simples: um estudante de chinês decide viajar à China – a redundância é o procedimento-chave do texto. Na fila do check-in, descobre sua ex-professora de chinês, “desaparecida dois anos antes”, com uma criança. Aproxima-se, e o pior acontece: um policial, apressadamente, retira as duas da fila. Ao mesmo tempo, outro policial o leva para um inesperado interrogatório, marcado por uma série de mal-entendidos. Porém, como se sugere no final da trama, “os mal-entendidos não deixam de ser uma forma de comunicação”.

O livro é estruturado por três monólogos, com pontuações eventuais do narrador: dois do estudante de chinês, e um longo desabafo de uma delegada em crise.

Reprodução retoma e aprofunda temas definidores da visão do mundo de Carvalho. Por exemplo, o desaparecimento de um estrangeiro é motivo recorrente em sua ficção. Recordem-se o suicídio de Buell Quain e o caso do fotógrafo brasileiro, respectivamente, em Nove Noites e Mongólia.

De igual modo, a iminência do fim das culturas projeta-se em toda sua obra. Retorne-se ao primeiro livro, Aberração (1993). Vale a pena reler Uma Civilização, pois certas obsessões já se encontram nesse primeiro exercício antropológico-literário. Nele, estudiosos descobrem uma cultura que “sofreu (...) um susto, um ataque cardíaco, e desapareceu”. O conto busca imaginar mundos alternativos, porém com uma torção significativa: podemos idear universos paralelos, mas unicamente para reduzi-los aos padrões que dominamos. (Isto é: reprodução do conhecido.)

Lembre-se ainda da entrevista feita pelo jornalista-narrador de Nove Noites, ou seja, Carvalho, com Claude Lévi-Strauss. No fundo, as palavras do antropólogo emolduram o dilema vivido em Reprodução: “Quando eu estava no Brasil, há mais de cinquenta anos, fiquei profundamente emocionado, é claro, com o destino daquelas pequenas culturas ameaçadas de extinção. Cinquenta anos depois, faço uma constatação que me surpreende: também a minha própria cultura está ameaçada”.

Ameaçada pela “internacional da trivialidade”. Os monólogos de Reprodução recorrem deliberadamente ao idioma monótono da “cultura-esperanto”. A extinção acelerada de idiomas é tópico que, embora seja fascinante, é pouco explorado ficcionalmente. Aqui, se destaca o romance de Carvalho. Não surpreende, pois, que um dos policiais mate o tempo “lendo um livro sobre o desaparecimento das línguas”.

Por fim, a padronização das culturas estimula um questionamento decisivo acerca da potência da literatura no mundo contemporâneo. O narrador de Mongólia explicita o receio: “A literatura já não tem importância”; e justifica o diagnóstico: “a nossa já não era uma época para a literatura”.

Em Reprodução, o motivo ressurge através da escrivã Márcia, descrita de forma sintomática: “é branca e burra, burríssima, só serve pra ler romance”. Esclareça-se, porém, que a escrivã Márcia nunca consideraria Reprodução um “romance”. (Paul Valéry tinha mesmo razão.)

JOÃO CÉZAR DE CASTRO ROCHA É PROFESSOR DA UERJ

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