Reprodução de "Os Lusíadas" exigiu processo artesanal

Durante anos, o bibliófilo JoséMindlin dedicou-se a atividades diversas, como advogado,empresário fundador da Metal Leve e Secretário da Cultura,Ciência e Tecnologia do Estado, entre outras, além de participaraté hoje de Conselhos culturais e empresariais, científicos etecnológicos. Mas ele confessa: o que sempre fez seu coraçãobater mais forte foi a descoberta de uma obra rara. E foi oacaso que lhe permitiu ter a primeira edição de Os Lusíadas,datada de 1572, da qual existem pouco mais de 20 exemplaresespalhados pelo mundo.Mindlin estava em Portugal, onde se encontrou com umlivreiro que estava por adquirir a edição. O empresáriobrasileiro pretendia tratar de outros negócios, mas não resistiuquando o comerciante lhe ofereceu a obra, comprando-a naquelemomento. Com o tempo, Mindlin organizou uma coleção de livros deCamões com mais de 100 edições, em várias línguas e versões,inclindo a segunda, censurada, datada de 1584, que muitosconsideram ainda a primeira edição, com algumas correções.A polêmica sobre a autenticidade da primeira edição,aliás, vem se prolongando há séculos, pois existem duas versõesdatadas de 1572, praticamente idênticas - as diferenças sãopequenas alterações que se tornaram famosas, como a figura dopelicano na portada, que está em alguns exemplares voltado paraa direita do leitor e, em outros, para a esquerda. Além disso,segundo Mindlin, na sétima linha da primeira estrofe do poema,em alguns exemplares, diz "Entre gente remota edificaram", eem outras "E entre gente remota edificaram" (ediçõesconhecidas como "e" e "ee").As dúvidas dificilmente poderão ser solucionadas poisaté hoje não foi encontrado o manuscrito original de Camões, quecuriosamente financiou a primeira edição de sua obra, como aindafazem muitos autores iniciantes.Por se tratar de um exemplar raro, a edição de OsLusíadas utilizada para a edição fac-similar não pôde deixar abiblioteca de Mindlin, que já conta com mais de 20 mil volumes.O processo utilizou tanto ações artesanais como o uso de modernatecnologia. As quase 400 páginas da obra, por exemplo, foramfotografadas uma a uma por Nellie Solitrenick, que utilizou umacâmera digital. No lugar de vidro para segurar as páginas, asfolhas foram abertas e mantidas assim por duas pessoas, uma vezque a obra não suporta uma abertura total. "Tivemos de criaruma numeração de referência para o nosso controle, pois nooriginal só as páginas da direita são contadas", explica afotógrafa.Enquanto as páginas eram processadas e determinadoscantos substituídos por páginas censuradas do jornal O Estadode S. Paulo, iniciou-se um trabalho cuidadoso com a capa. Adiretora de arte Gisele Dias redesenhou todos os detalhes embico-de-pena. A capa recebeu ainda um laminação fosca para quese conseguisse o mesmo efeito do pergaminho aveludado original.

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