Reprise do filme

NOVA YORK

Lúcia Guimarães, O Estado de S.Paulo

29 de novembro de 2010 | 00h00

Diálogo num programa de rádio americano, quarta-feira passada:

Glenn Beck: Como você ia lidar com uma situação como a da Coreia do Norte?

Sarah Palin: Não acreditamos que a Casa Branca vá se sair com uma política forte o bastante para sancionar o que os norte-coreanos vão fazer. (...) Obviamente temos que ficar firmes do lado dos nossos aliados da Coreia do Norte.

Glenn Beck: Da Coreia do Sul...

Diálogo do filme De Volta para o Futuro, de 1985, numa cena que se passa nos anos 50:

Doc: Quem é o presidente dos Estados Unidos em 1985?

Marty: Ronald Reagan.

Doc: Ronald Reagan? O ator? Então quem é o vice-presidente, Jerry Lewis?

Hollywood subestimou as chances da vida real desafiar a credulidade. Quinze anos depois, um filhinho de papai que não conseguiu pistolão para ser presidente da liga de beisebol, aceitou o prêmio de consolação oferecido pelo Partido Republicano: concorrer ao governo do Texas. O resto, como se diz, é história. Ou dezenas de milhares de iraquianos mortos, sem contar os 5.700 soldados americanos - o número continua subindo, graças ao Afeganistão.

Voltamos ao cenário conhecido: uma carreira política orquestrada em torno de uma figura telegênica, sem nenhum preparo intelectual ou interesse no mundo além do seu quintal. Pior: que imagina ver a Rússia do seu quintal.

A grande diferença é que, aos olhos do Partido Republicano, Sarah Palin é tanto fada madrinha quanto Frankenstein.

A ex-governadora do Alasca e aspirante a presidente dos Estados Unidos habita um faroeste que desafia os xerifes do partido. Sarah Palin move-se entre seu reality show, um concurso brega de dança, no qual sua filha Bristol foi vista por 24 milhões de espectadores, e a turnê promocional de seu novo best-seller, escrito sabe-se lá por quem, com o título America by Heart: Reflections on Family, Faith and Flag (América de Cor - ou de Coração - Reflexões sobre Família, Fé e Bandeira). Uma das primeiras escalas da turnê palinesca (sim, rima com dantesca) é o Estado rural de Iowa, não exatamente conhecido pelo consumo voraz de livros e sim por dar início à corrida presidencial com uma assembleia partidária.

Ela continua alimentando a seção de palinismos, que substituiu a velha seção de bushismos na revista Slate. Mas, nem a perigosa confusão sobre qual a Coreia aliada nem os atentados à língua que revelam a espantosa ignorância dessa mulher com diploma de jornalista afetam seu potencial de capitalizar publicidade e atrair milhões de dólares.

Sarah Palin é fartamente remunerada para obter o que custa caro aos outros aspirantes à Presidência em 2012: atenção constante. Como empregada de Rupert Murdoch, ela usa a rede Fox, o Facebook e o Twitter para disparar contra o que chama de lamestream media. O trocadilho mistura mídia tradicional, mainstream, com o adjetivo lame, manco. Em sua nova série Sarah Palin"s Alaska, uma pseudocrônica da vida ao ar livre, exibida por um pequeno canal a cabo, ela caça, pesca e pratica tiro ao alvo com a família. Sarah explora o grande recurso do reality show: perpetuar mitos sobre si mesma.

O avanço de Sarah Palin deixa políticos de carreira apopléticos porque a naturalidade com que ela se serve da baixa cultura e explora o ressentimento antiestablishment produziu a personagem mais poderosa da oposição a Barack Obama: uma mistura de Paris Hilton com John Wayne. Como Paris Hilton, Sarah não faz nada a não ser atrair atenção e, como John Wayne, ela representa a rebeldia de fronteira.

Um vídeo que vazou para o YouTube mostrou um grupo de âncoras da rede Fox fazendo chacota sobre sua colega Sarah, pouco antes de entrar no ar. O dilema Sarah Palin paralisa conservadores e liberais. Há um temor de vir a público e expor o obscurantismo que ela representa, porque Sarah é bem vista por mais de 40% dos americanos. Seus concorrentes em 2012 evitam atacá-la. Os democratas chegam a torcer por sua candidatura porque não teriam que sujar as mãos atacando um adversário tradicional. E parte da mídia, embora explore cada gafe que Sarah comete, começa a demonstrar timidez diante de sua celebridade.

De um google no nome Sarah Palin e confira quanto a "lamestream media" divulga seus passos. É deprimente o espetáculo de jornalistas veteranos cobrindo com destaque as declarações de Sarah sobre a política monetária do Banco Central americano, em que mistura termos técnicos, soprados por um assessor, à linguagem do seriado Lei e Ordem. Dá saudade dos concursos de miss, com suas candidatas citando o Pequeno Príncipe.

A atitude de avestruz da mídia americana facilitou duas guerras, um crash econômico e o prejuízo incalculável à estatura dos Estados Unidos no mundo.

Na semana passada, Barack Obama disse, numa entrevista, que "não pensa em Sarah Palin" porque está ocupado, governando. Ainda que não fosse naturalmente cerebral, Obama não pode deixar-se engajar em público antes de 2012.

Se a história se repete, primeiro como tragédia, desta segunda vez parece menos farsa do que filme de horror.

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