Representatividade

No que a Suprema Corte dos Estados Unidos e a seleção brasileira de futebol se parecem?

Luiz Fernando Veríssimo, O Estado de S.Paulo

19 de agosto de 2010 | 00h00

Com a aprovação da sua mais nova integrante, Elena Kagan, o alto tribunal americano hoje é formado por seis católicos e três judeus. As religiões protestantes, que são maioria no país, não têm um representante sequer entre os seus juízes supremos. Na última seleção de futebol formada no Brasil, pelo que se infere de manifestações de jogadores e comissão técnica, as religiões predominantes eram as evangélicas. O maior país católico do mundo foi representado por um grupo pouco católico. Nos dois casos, nada demais, apenas a curiosidade. Ninguém tem nada a ver com a religião de ninguém, só o que interessa é que os juízes americanos sejam justos e os jogadores brasileiros não tremam diante da Holanda, sejam quais forem suas relações ou falta de relações com Cristo. Mas como estamos em época de campanha eleitoral, vale a pena pensar sobre representatividade e sub-representatividade, o que no fim é pensar um pouco sobre a democracia na prática.

Um exemplo notório de falsa representatividade foi a seleção francesa de futebol nas últimas copas. Seus jogadores eram negros ou magrebinos numa proporção inversa à da população francesa, para grande revolta do Le Pen. Ninguém fora da extrema direita se queixou da falsa representatividade quando a França foi campeã do mundo em 1998 com quase nenhum branco no time (só me lembro do Barthes). Mas também não vale dizer que o maior vexame da seleção francesa nos últimos anos, na Copa da África, aconteceu porque o time tinha branqueado um pouco.

Na política a representatividade pode ser desvirtuada pelo processo de escolha, que muitas vezes favorece uma boa estampa ou uma boa fala que representam nada. O dinheiro que precisa ser gasto no processo também deturpa a escolha. Certa vez um político reagiu indignado à acusação de que seu partido não dava atenção às minorias, declarando que ele representava a menor minoria de todas no país, a dos milionários. No Brasil, esta minoria sempre foi muito bem representada nos governos e no Congresso. Grandes proprietários rurais também têm uma representação desproporcional ao seu tamanho, são outro exemplo de uma minoria nunca negligenciada. Exemplo evidente de sub-representatividade no Brasil é a da maioria que não pode pagar por representatividade.

E o maior exemplo histórico de pouca representatividade, claro, é o das mulheres, que são, pela última contagem, a maioria da humanidade, e que até há pouco tempo não podiam nem escolher os homens que as representariam.

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