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Representatividade

Como se escolhe um candidato à Presidência e depois um presidente que represente não apenas um bloco de votos, mas uma necessidade histórica, já que um torneio de cabeçadas é inviável?

Luis Fernando Verissimo, O Estado de S. Paulo

02 Agosto 2018 | 02h00

Antigamente, bem antigamente, era mais simples. Os machos de uma espécie faziam um torneio de cabeçadas e quem acabasse de pé era o chefe. Tinha o poder – e as fêmeas, claro – pelo menos até aparecer um macho mais macho do que ele. De acordo com Freud, o ato inaugural da civilização foi a revolta dos filhos contra o pai tirano com o monopólio do poder – e das fêmeas. O bando de irmãos parricidas está na origem da sociedade humana, mas Freud diz que só um era eleito para matar o pai, e se tornava o protótipo do herói que, através da História, repetiria o ato, seria festejado, endeusado e finalmente sacrificado (na cruz, por exemplo).

O herói parricida representava a necessidade de mudança, era a História que o elegia. Nas monarquias, o monarca representava a vontade de Deus, e quem se atrevia a discutir com Deus? A transferência de poder podia ser violenta – um príncipe ressentido com uma adaga no meio da noite, uma poção fumegante no vinho, uma revolução – mas muitas monarquias persistem em existir, apesar do ridículo, porque Deus quer. As ditaduras são arremedos de monarquias porque invejam o patrocínio de Deus, o grande eleitor, e dispensam o incomodo de pleitos, votos, essas bobagens. Na Inglaterra, quando a rainha decidir renunciar e ir viver seus últimos dias na Côte d’Azur, Charles assumirá o poder representando nada mais do que sua paciência. No Brasil da ditadura a questão da representatividade foi suspensa por 20 anos. Um general elegia outro general para substituí-lo, certo de que Deus o aprovaria, e pronto. O poder militar representa só a si mesmo.

Como se escolhe um candidato à Presidência e depois um presidente que represente não apenas um bloco de votos, mas uma necessidade histórica, já que um torneio de cabeçadas é inviável? Já ouvi a sugestão que se largue todos os candidatos anunciados no coração da Amazônia armados com um facão e um cartão de crédito. O primeiro a chegar a Brasília ganha a Presidência. Sem representar nada além da sua própria ambição e sua saúde para o cargo.

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