Repórter conta em livro trajetória de Marcinho VP

A trajetória do traficante Márcio Amarode Oliveira, o Marcinho VP, de menino nascido na favela SantaMarta, em Botafogo, na zona sul do Rio, a chefe do tráficocarioca, virou romance-reportagem pelas mãos do repórter CacoBarcellos. Abusado, o Dono do Morro Dona Marta, que acaba desair pela Record, é o terceiro livro do correspondente da RedeGlobo em Londres e demorou quase sete anos para acontecer."Eu queria contar, por dentro, como é uma quadrilha detraficantes de morro no Rio porque a sociedade os teme porconhecer pouco sua história", explica Barcellos. "Tentei Acarie a Rocinha antes, mas só deu certo em 1999 no morro DonaMarta."VP demorou três anos para dar permissão e aparece nolivro como Juliano. Barcellos explica que mudou o nome de todasas pessoas por uma questão de segurança deles, mas não tevedificuldades maiores que em outras matérias suas para falar comos personagens e saber deles as versões dos fatos. "Sempre fizjornalismo investigativo e, por isso, estou acostumado aconversar muito, checar as histórias que eles contam. Muitacoisa ficou de fora porque há casos repetidos e não é precisocontar duas vezes o mesmo tipo de acontecimento", ensina ele.A linguagem usada pelos "soldados", "gerentes" eoutros personagens do tráfico, assim como o detalhamento deconversas que eles têm entre si dão um sabor especial ànarrativa e resultam de mais de 200 entrevistas, mas também deuma forma muito particular de eles contarem suas vidas. "Elesnão analisam, não interpretam, não dão a manchete doacontecimento. Contam tudo no diálogo e incentivei a ser assimporque, apesar de dar um cunho de romance, queria que opersonagem fosse o centro da ação", revela. "Assim fica maisfácil chegar à prova, pois um tiroteio ou outros fatos têmregistros criminais ou na imprensa e os sentimentos ou idéias,não."A inevitável comparação com Cidade de Deus, o livroe o filme, não incomoda Barcellos que, no entanto, encontradiferenças fundamentais. "Primeiro porque uma (Cidade de Deus) é ficção e a outra relata fatos acontecidos. Meu livro é recente, conta fatosaté do início deste ano e Cidade se foca nos anos 70 e 80, eas duas comunidades são diferentes. Santa Marta é uma favelatípica da zona sul e Cidade de Deus um conjunto habitacional daperiferia carioca", enumera ele.Abusado é o terceiro livro de Caco Barcellos, queantes contou como os jovens nicaraguenses ajudaram a derrubar oditador Anastacio Somosa, em Crianças da Nicarágua, edesvendou a Ronda Ostensiva Tobias de Aguiar, polícia especialde São Paulo, em Rota 66. Mas agora ele não quer pensar tãocedo em outra obra. "Levei muito tempo envolvido com esse livro só pensava nisso e quase fui à falência de tanto telefonema deLondres para cá, de madrugada, para conversar com ospersonagens. Agora quero descansar", garante. Até porque houveum momento em que a própria polícia (cujos integrantes nãoaparecem como heróis no livro) tentou impedir sua pesquisa."Quando eles souberam, me seguiam toda vez que eu ia no morro.Então, foram os traficantes ou seus amigos que desciam porqueeles queriam contar a história."

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