"Replay", um jeito irônico de ver a realidade

Um homem comum, Beto, revê sua vida. Fanático por futebol, ele vai proceder a uma espécie de replay de suas melhores e piores "jogadas". O processo leva-o a perceber mais fracassos que sucessos, embora encontre sempre, ao fim do túnel, um tenaz otimismo que o leva a acreditar que o recomeço é possível, que no próximo "jogo" a derrota poderá ser transformada em vitória, quem sabe, ou, na pior das hipóteses, em empate.Essa é a história de Replay, texto de Max Miller, jovem publicitário gaúcho que estréia na dramaturgia. A peça está em cartaz na Sala Assobradado do Teatro Brasileiro de Comédia, com direção de Gabriel Villela. O texto de Miller, apesar da curiosa aproximação que estabelece entre o futebol e a vida, não vai muito além do lugar comum. Beto é um sujeito egoísta, um machão típico da classe média brasileira,um filhinho de mamãe, e não se afasta desse modelo, apesar das repetidas derrotas que a vida lhe inflige.Miller demonstra pouca imaginação no terreno da fábula. Cria, porém, bons diálogos. Os confrontos entre os personagens são alimentados por uma observação irônica da realidade. E o fato de o dramaturgo tratar com humor seu machão fanático por futebol, contribui para superar os limites da obra do autor estreante.Gabriel Villela dirigiu Replay com leveza e bom humor. O elenco, integrado por Raul Gazzola, Vera Zimmermann, Cláudio Fontana, Mateus Carrieri, Fernando Neves e Maria do Carmo Soares, entre outros, usa roupas comuns, mas a maquilagem é pesada. Todos surgem como clowns e representam de maneira brincalhona, irreverente, a vida desencontrada do imaturo Beto.Na direção deste espetáculo, Villela adotou uma ambientação limpa, afastando-se da sobrecarga barroca de elementos que sempre povoou suas encenações. Replay diverte pela despretensão e invenção, e recorre a uma insólita associação de alta tecnologia com raízes caipiras do Brasil. Os atores desenvoltos , engraçados, estabelecem com precisão os limites clownescos da narrativa. E o que poderia soar solene ou melodramático, se a história fosse contada de maneira convencional, ganha um ar circense. Replay mostra Villela de volta à leveza e à comicidade inspirada de Você Vai Ver o que Você Vai Ver, o espetáculo que o consagrou em 1989.

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