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Renata Sorrah, eterna aprendiz

Reconhecida por papéis clássicos, atriz sela parceria com a Cia. Brasileira de Teatro para encenar a contemporânea 'Esta Criança'

Maria Eugênia de Menezes, enviada especial / Rio - O Estado de S.Paulo,

02 de novembro de 2012 | 02h07

No teatro, os papéis de Renata Sorrah são tão agudos e viscerais quanto aqueles que ela popularizou na TV. Ao longo de 45 anos de carreira, a intérprete tornou-se conhecida por seu pendor dramático. Talento que a credenciou a encenar os grandes clássicos da dramaturgia ocidental. Ao palco, levou uma série de obras de Shakespeare, de Chekhov, de Sófocles. Mas nunca parou por aí.

Inquieta, ela busca agora o texto de um novo autor e a parceria com um jovem diretor. Conduzida por Marcio Abreu, ela estreia no Rio Esta Criança, peça de Joël Pommerat, nunca antes encenado no Brasil. "Shakespeare é um gênio. Mas os contemporâneos também são", disse Renata ao Estado, durante os ensaios do novo espetáculo.

Não é a primeira vez que a atriz apresenta um dramaturgo ao País. Essa ânsia por descobertas já estava delineada em suas escolhas por Afinal... Uma Mulher de Negócios, estreia de Fassbinder entre nós, e por Um Dia, no Verão, do então quase desconhecido Jon Fosse.

"Mas não é que agora eu estivesse em busca de alguma dramaturgia nova." Primeiro, ela conta, veio o desejo de se aproximar da Cia. Brasileira de Teatro. "A vontade de trabalhar junto surgiu vendo os espetáculos deles: tudo ali me instigava, a maneira como faziam, o texto, os atores."

A parceria ganhou impulso ao encontrarem o texto. Esta Criança chegou às suas mãos por intermédio de Ariane Mnouchkine. A francesa, diretora da mítica companhia Théâtre du Soleil, lhe sugeriu alguns títulos. A peça de Pommerat, em especial. Por coincidência, era sobre o mesmo dramaturgo que se concentravam as atenções do grupo de Curitiba. Foi assim que, há cerca de dois anos, deu-se o encontro entre atriz e companhia.

Alguns aspectos ajudam a entender o interesse em torno do escritor francês. Artista associado ao reconhecido Théâtre Bouffes du Nord, de 2007 a 2010, Joël Pommerat escreve desde os anos 1990, mas apenas recentemente começou a ganhar notoriedade. "De repente, ele se tornou um nome. Os teatros ficaram abarrotados, as pessoas passaram a esperar por seus novos trabalhos. E seu sucesso na Europa começa a se expandir para novos lugares", diz o diretor.

Entre as ambições que animam a dramaturgia contemporânea estão a recusa das formas tradicionais e uma ânsia de aproximar-se do real. Pommerat reúne as duas prerrogativas. Ao escrever Esta Criança, em 2006, partiu de situações verídicas. Conversou com mulheres de cidades da Normandia. Impregnou-se de seus depoimentos para escrutinar violentamente os laços familiares. "Ele dialoga com situações reais, mas não as reproduz", ressalva Marcio Abreu. "É essa a sua potência: não trazer a transposição de uma situação real. O que está ali se refere ao real, mas o condensa, transforma, retira do realismo."

Embates entre pais e filhos permeiam o espetáculo. Não que a temática não seja usual no teatro. Pautou grande parte da ficção do século 20, inspirando as criações de Eugene O'Neill e Tennessee Williams. Mas trata-se de uma outra maneira de apropriar-se do universo das disfunções familiares. Pommerat não se permite julgamentos. Escapa dos clichês do gênero. Disseca tudo de forma concisa e pungente. Mesmo ao trafegar por território atravessado por afetos, não se permite incorrer no drama. "É um autor que ensina como se distanciar para não fazer um dramalhão", considera a atriz.

Contracenando com Giovana Soar, Ranieri Gonzalez e Edson Rocha, Renata Sorrah não assume o lugar de protagonista. Os quatro revezam-se em dez cenas, um conjuntos de enredos e personagens diversos.

Renata, por exemplo, interpreta uma mulher grávida, ansiosa pela criança que pode redimir suas mágoas. Vive uma menina, que recusa o amor do pai ausente. Surge como uma mãe que chantageia o filho em busca de atenção para suas mazelas.

Reconhecida por sua intensidade, ela aqui se exercita em um polo oposto. Contém a emoção. Está diante de um balanço delicado - e por isso nem sempre fácil de atingir - entre precisão e sensibilidade, sofisticação e simplicidade. "Me sinto descobrindo coisas, aprendendo", diz.

Um aprendizado que deve prosseguir pelos anos seguintes. Juntos, a intérprete e a Companhia Brasileira de Teatro já estão envolvidos em um novo projeto, planejam para breve a montagem de um texto do israelense Hanoch Levin.

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