Renata Almeida assina sua primeira Mostra

Como é o desafio de fazer sozinha o maior evento de cinema da cidade? A viúva de Leon Cakoff fala de escolhas e apoios

LUIZ CARLOS MERTEN, FLAVIA GUERRA, UBIRATAN BRASIL, O Estado de S.Paulo

07 Outubro 2012 | 03h11

Renata Almeida irrompeu na vida de Leon Cakoff na 13.ª Mostra. Tornaram-se parceiros, na vida como no evento, e assim permaneceram por 21 anos (e Mostras). O tempo de uma maioridade. No ano passado, a poucos dias do início da 35.ª Mostra - e após longo sofrimento -, Leon morreu. A Mostra realizou-se, em meio a manifestações de apoio e solidariedade, mas Renata nem se lembra direito das circunstâncias. A ficha - a dor da perda - caiu depois. Renata agora realiza sua primeira Mostra - a de número 36. A tarefa é tão grande, e ela parece tão frágil, que muita gente - amigos - lhe disseram que deveria compartilhar a tarefa. Curiosamente, todos os nomes sugeridos eram de homens. Renata, sutilmente, disse não. Ela sabe que, com um homem ao lado, dificilmente ele deixaria de levar o crédito da realização.

Muitas ideias das Mostras anteriores eram dela, mas foram creditadas a Leon Cakoff. Não faz mal - ele era o companheiro, o pai de seus filhos, e o pai daquela criança, em especial, a Mostra. Leon formatou o evento, guerreou por ele. Renata foi sua escudeira. Mesmo quando discordavam - brigavam? -, completavam-se além da perfeição. Na sede do evento, na sala que Leon ocupava no sobrado da Rua Antônio Carlos, ela faz agora a declaração que pode surpreender. "A Mostra não é minha vida. Se tiver de parar, eu paro." Mas não é isso que está pintando no horizonte. Até para provar que é capaz, Renata admite que a 36.ª Mostra ficou muito grande, maior do que gostaria. E não está sozinha: "Tenho minha equipe, muito dedicada. São os meus guerreiros e guerreiras nessa batalha".

Neste dia, em particular, ela está assistindo a seu quarto ou quinto filme. "Os DVDs não param de chegar, é muita gente oferecendo seus longas", comenta. Ela acaba de assistir ao trabalho da atriz e diretora palestina Hiam Abbass. Ficou encantada. Renata vai contando. No fim da vida, até por conta da concorrência do Festival do Rio, Leon decidira não reprisar aqui os filmes lançados lá, até para não dar a impressão de segunda mão num evento que foi pioneiro no País. Ao longo de 36 anos, a Mostra desafiou - e venceu - a censura do regime militar e os próprios distribuidores e exibidores, provando que há um mercado de cinéfilos, ávido por obras de exceção.

Renata é boa em administrar egos e crises. Nos bastidores, há uma guerra, pois os filhos do casamento anterior de Leon Cakoff querem impugnar seu espólio, que inclui a própria Mostra. Isso é desgastante. Existe outro tipo de disputa. "O Rio também queria Amor, de Michael Haneke, que venceu o Festival de Cannes e o distribuidor (Jean Thomas Bernardini, da Imovision) resolveu que não ia ceder lá nem cá. O que vou fazer? Brigar com ele? Já exibimos aqui todos os filmes de Haneke. A Mostra vai sobreviver um ano sem ele."

A exigência de ineditismo não atinge o cinema brasileiro, e a explicação é simples. "Temos aqui o Prêmio Itamarati, que tem uma dotação importante e esse dinheiro poderá ajudar no lançamento do vitorioso. O mercado é tão difícil para a produção nacional que acho que seria injusto impedir que alguns filmes concorressem, só porque não são completamente inéditos." Ela lamenta que o centenário Manoel de Oliveira, impedido de viajar, já tenha anunciado que não virá à Mostra, mas o novo longa dele, O Gebo e a Sombra, ficou reservado para os paulistanos. Tabu, de Miguel Gomes, passou no Rio, numa homenagem ao cinema português, mas o diretor também garantiu que só vem para a Mostra.

São velhas amizades que Leon e ela estabeleceram ao longo dos anos, abrindo o mercado de arte brasileiro para autores de todo o mundo. Isso lhe permitirá realizar no Brasil a primeira retrospectiva de Sergei Loznitsa, incluindo os curtas do autor mais contundente da Rússia pós-comunista. A Petrobrás, como tradicionalmente, nos últimos 11 anos, é a grande parceira, mas não existe nenhum contrato escrito e assinado. É tudo feito na confiança, bem como Leon gostava. Uma nova parceria foi estabelecida com o BNDES, que este ano completa 60 anos. O custo de um evento tão grande é sempre um problema. Renata selecionou a versão restaurada de Nosferatu, de F. W. Murnau, para o encerramento. Só trazer o maestro Pierre Oser, que vai reger partitura especial para o filme, já tem lhe tirado o sono. "Eles fazem muitas exigências e é tudo muito caro, mas vai valer a pena", garante.

A cereja deste bolo anunciado está no cartaz da 36ª Mostra. São três instantâneos de Andrei Tarkovski, retirados de sua exposição Luz Instantânea - As Polaroides de Andrei Tarkovski, que já rodou o mundo e havia esgotado seu ciclo, mas ainda será vista pelos brasileiros na Mostra. Foi uma longa negociação com o filho e herdeiro de Tarkovski, Andrei A., para permitir que isso ocorresse e o evento vai muito além das polaroides e do cartaz. Inclui uma exposição - no Masp, onde tudo começou, em 1977 -, uma mostra de filmes e o lançamento de um livro com as fotos, capa de tecido, da Cosacnaify.

"Estou muito feliz de estarmos exibindo a obra completa do Tarkovski e mais uma série de filmes sobre ele, ou inspirados por ele. São obras de Tonino Guerra, Chris Marker, Alexander Sokurov e Evgeny Borzov. Esse último vem à cidade acompanhando o filho do Tarkovski, que monta pessoalmente a exposição, por onde ela passa. Polaroides são muito delicadas, e exigem um cuidado imenso", ela explica.

Leon Cakoff sempre foi o sr. Mostra. A sra. Mostra fez ontem o anúncio do evento de 2012 para a imprensa. Dias antes, encontrara-se com a reportagem do Estado. Forneceu números - serão 350 títulos de 60 países, distribuídos em cinco seções, em 28 locais de exibição. Perspectiva Internacional, Mostra Brasil, Apresentações Especiais, Retrospectivas e a Competição Novos Diretores (até o segundo filme), que vai outorgar o troféu Bandeira Paulista, criado por Tomie Ohtake. Renata Almeida pode até estar certa ao dizer que a Mostra não é sua vida e ela poderia parar. Mas talvez seja só um mecanismo de defesa. Seu olho brilha quando fala no que vai exibir em sua primeira Mostra. É toda uma história que vai (re)começar.

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