Juan Guerra/AE
Juan Guerra/AE

Renascimento do espaço para discussão cênica

Conselheiro da Sociedade Brasileira de Autores Teatrais, o diretor Aderbal Freire-Filho fala sobre o espaço de ideias

Aderbal Freire-Filho ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

07 de novembro de 2010 | 00h00

É certo, perdi o siso, poeta, mas quero juntar na mesma agenda questões de sustentabilidade, direitos humanos e direitos autorais. Ou não perdi, estou no meu perfeito juízo e com intenções concretas e claras. E quero mais: convidar os interessados nessa agenda comum para um encontro num velho salão do centro do Rio, ainda com os ares da primeira metade do século 20, mas com o aspecto desolado de uma floresta desmatada.

Falo da sede da Sociedade Brasileira de Autores Teatrais. Felizmente, as reservas naturais nesse caso são inesgotáveis: assim como esse salão reuniu as riquezas das florestas amazônicas de Villa-Lobos, dos desvarios rodriguianos, da linguagem marginal de Plínio Marcos e tantas mais, pode juntar agora o pré-sol (eu disse sol, luz) da cultura brasileira e ajudar a salvar o planeta teatro.

Em inúmeros países, os criadores discutem seus direitos autorais, agora que a internet deu outro sentido à expressão "neste e no outro mundo", que passa a significar no mundo real e no mundo virtual. No Brasil e na Alemanha, por exemplo, a discussão foi aberta praticamente no mesmo dia. Não sei o que dizem os alemães, divididos entre Nietzsche, que matou Deus, e Ratzinger. Mas entre os brasileiros a discussão já provocou reações de apoio e de rechaço, de vamos discutir e de nem quero saber. Tudo é muito complexo, mas, como votamos pela continuidade, esperamos que o processo continue.

Curiosamente, quando o mundo real precisava estar fortalecido para os embates com as forças do outro mundo (o virtual, não o além), é vítima de um poderoso fator de enfraquecimento. Explico: na sua origem, as sociedades arrecadadoras eram associações de autores que, ao mesmo tempo em que cobravam os direitos dos seus sócios, eram centros culturais, espécies de academias, de clubes, lugares de encontro, etc. Hoje, as sociedades com essas características, no Brasil ao menos, são raras ou estão ameaçadas de extinção. Em sua maioria, viraram empresas, escritórios frios, dirigidos por empresários, onde os criadores, os artistas, são números e nada mais.

Não falo contra a profissionalização, pelo contrário, é essencial a adaptação aos novos conceitos e práticas de organização e gestão. Mas o corpo e a alma de uma sociedade de gestão devem ser formados por autores. Assim foi sempre a Sbat. Por isso, a agenda comum com os direitos humanos: o direito da amizade, do afeto, das conversas entre colegas. Também não é uma volta ao passado, essa convivência não precisa ser só presencial, como se diz hoje, ela pode ir do cafezinho ao twitter.

Jovens. Quem chegar hoje ao velho salão da Sbat, no centro do Rio, vai ter a alegria de ver muitos jovens escrevendo, discutindo, em seminários de dramaturgia. Vai receber um exemplar do novo número da re-renascida Revista de Teatro, com uma matéria de capa sobre Teatro e Filosofia, que será lançada na Livraria da Travessa. Um timaço no primeiro número: Zé Celso, Domingos Oliveira, Denise Bandeira, Marcus Caruso, Hamilton Vaz Pereira, Jô Bilac, Sergio Britto, Diogo Vilella. E os filósofos Roberto Machado, Luis Carlos Maciel, Carolina Araújo, Pedro Sussekind, Luisa Buarque. Muitos mais. A editora Regina Zappa renova uma revista que tem história.

É só o começo de um amplo programa para a criação do Centro Cultural Sbat. Os autores no seu hábitat. A Sbat, voltando a ser a casa do autor: a sala, as varandas, os sofás acolhedores, janelas para a rua em frente e computadores abertos para o mundo.

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