Renascer após a dor e a queda

Em Submarino, o dinamarquês Vinterberg vai ao submundo de Copenhague

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

13 de setembro de 2011 | 00h00

Pouca gente se lembra, mas o verdadeiro pai do Dogma foi um jovem de 29 anos. Thomas Vinterberg foi o primeiro a filmar segundo as regras do movimento dos monges cineastas da Dinamarca. O filme era Festa de Família, de 1998. Alguns anos e muitos equívocos depois, ele foi aclamado no Festival de Berlim de 2010 e pela própria Academia Escandinava de Cinema, com Submarino. O filme estreou na sexta-feira. Vem somar-se a Melancolia, de Lars Von Trier. Em 2005, Vinterberg começou a ressurgir filmando um roteiro de Von Trier, Querida Wendy.

Em Berlim, Vinterberg meio que justificou a acolhida excepcional que o filme teve em seu país com uma justificativa até certo ponto muito simples. Disse que Submarino é seu filme "mais escandinavo". Festa de Família, pelo contrário, é, assumidamente, shakespeariano. "A família dividida de Rei Lear, a indagação intelectual de Hamlet. Sei que isso pode parecer terrivelmente pretensioso, mas meu pai era um intelectual que amava Shakespeare e me criou na admiração dos clássicos. Submarino baseia-se num livro cult de Jonas T. Bengtsson, que é um autor mais embasado na realidade, não apenas da Dinamarca, mas da Escandinávia. Narra uma história de queda e redenção, de ascese, como aquelas que nosso grande mestre, o maior de todos, (Carl Theodor) Dreyer, gostava de contar."

Bengtsson escreveu, segundo os críticos, o livro definitivo sobre o underworld da Copenhague contemporânea. Submarino conta a história de dois irmãos que foram abusados e negligenciados por uma mãe alcoólatra. Cada um segue seu caminho e se reúnem, anos depois, justamente por ocasião da morte da mãe. Vinterberg põe seus atores, Jakob Cedergren e Peter Plaugborg, nas nuvens. "Não sei o quer teria feito sem eles. Em primeiro lugar, acho que nem teria feito o filme. Submarino exigia atores especiais e eles foram fundo na investigação de personagens que são, basicamente, difíceis. A ideia, aqui, é ir fundo na dor e no sofrimento, expor a vulnerabilidade. O que esses dois irmãos mostram, para mim, é que é preciso perder as cascas para renascer."

Teria sido interessante repercutir com Vinterberg as polêmicas declarações que renderam o rótulo de nazista a Lars Von Trier, durante a coletiva de Melancolia em Cannes, este ano. Mas Vinterberg, em pleno verão escandinavo, saiu sem rumo e não foi encontrado. Ele provavelmente teria acentuado o caráter provocador de Von Trier, que fala mais que a boca e não mede as palavras. O que ele refletiu foi sobre o fim do Dogma - "É uma página virada, mas, para nós todos, foi muito importante. Surgimos como um grupo, uma geração cheia de ideias, querendo marcar o cinema. Se tentássemos fazê-lo individualmente, talvez não tivéssemos conseguido. Em geral, é assim. O neorrealismo, a nouvelle vague foram todos movimentos. A união dos diretores é que fez a força. Pode-se dizer que, naquele momento, quando criamos o Dogma, mais importante que os filmes era a forma como eram feitos. Queríamos, até como expressão da nossa revolta, ser pobres, despojados, ascéticos. Cada um seguiu seu caminho, está tendo de assumir seus limites. Mas ainda nos relacionamos. Lars, Suzanne (Bier), eu. Bem ou mal, já temos um nome e seguimos fazendo nosso cinema. O problema é a novíssima geração do cinema dinamarquês, os que surgiram depois, os órfãos do Dogma. Eles enfrentam a pior crise da história do cinema no país."

SUBMARINO

Direção: Thomas Vinterberg.

Gênero: Drama (Dinamarca/ 2010, 105 minutos).

Censura: 16 anos

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