Imagem Luis Fernando Verissimo
Colunista
Luis Fernando Verissimo
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Remorsos

A decisão do Trump de cancelar ataque ao Irã ao saber o número previsto de baixas civis na operação talvez seja o começo de uma espécie de cultura do remorso, inédita até agora

Luis Fernando Verissimo, O Estado de S. Paulo

04 de julho de 2019 | 02h00

O ser humano é o único ser que ri mostrando os dentes. Ele saúda os outros revelando sua arma mais agressiva, o que não deixa de ser uma confissão de cinismo. O que nos outros animais é um prenúncio de ataque, para assustar, no ser humano é simpatia. Quanto maior a exibição de caninos dilacerantes e incisivos ameaçadores, maior a falsidade.

Mas está em curso – não sei se notaram – um movimento retributivo, talvez o começo de uma espécie de cultura do remorso, inédita até agora, que vem por aí. 

Não recebeu a atenção que merecia a decisão do Trump de cancelar um ataque americano ao Irã, em represália por um drone derrubado, depois que ele ficou sabendo o número previsto de baixas civis na operação. Trump suspendeu a ação punitiva poucas horas antes de ordená-la, para grande irritação, imagina-se, de John Bolton e os outros hiperfalcões da sua equipe.

Estávamos acostumados a bombardeios americanos anunciados como intervenções “cirúrgicas”, no vocabulário do cinismo. Na invasão do Iraque, por exemplo, quando mais de 100.000 civis morreram, presumivelmente da cirurgia.

Um Trump com bom coração, decidindo quem morre e quem é poupado, de acordo com seu humor matinal, é uma novidade. Fossem quais fossem as razões do Trump, os iranianos que deixaram de pagar por um drone abatido agradecem. 

Um grupo de bilionários, a maioria americanos, pediu ao governo que cobre mais impostos dos ricos, invista mais em programas sociais para diminuir a escandalosa distância entre o um por cento da população que ganha cada vez mais e o resto que ganha o resto.

O movimento não é de esquerdistas sonhadores, inclui gente como Warren Buffett, o americano mais bilionário do mundo, e Bill Gates. Não se sabe se o grupo vai conseguir convencer o governo a adotar seu programa, que já está pronto: é o socialismo, ou o remorso precavido.

De qualquer jeito, um bom modelo para os nossos ricos. Sem riscos. Sempre ouvi dizer que o socialismo só daria certo aqui com um bom patrocinador.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.