Reminiscências da "caipirinha" modernista

Quem passa pela SP-101, a "rodovia do açúcar", e repara nos imensos e simétricos tapetes verde-claros formados pelos vastos canaviais da região, ora interrompidos por casebres coloridos, ora por bananais ou altos moinhos de vento, imagina facilmente o porquê da modernista Tarsila do Amaral ter acrescentado em sua obra um alarde cubista tão expressivo, em perfeita harmonia com suas raízes caipiras. Com essa natural mistura em mente, cabe uma pergunta: não seria plausível considerá-la antropofágica desde seus primeiros estudos, quando devorava a vanguarda européia e a transformava em impressões sertanejas de sua realidade contemporânea? Não estaria Tarsila fomentando desde a infância, na fazenda de seus pais, todas as questões que seriam propostas na Semana de Arte Moderna de 1922, assim como as respostas adormecidas até o Manifesto Antropofágico de 1928? Certamente, a inconsciência de Tarsila guardou aspectos de uma identidade da arte brasileira que só eclodiriam anos depois, primeiro na vanguarda da Semana de 22, depois nas palavras do manifesto de Oswald de Andrade. Em 1923, Tarsila viajava por Paris quando mandou uma carta à família, referindo-se a esses sentimentos "caipiras". Uma das frases dessa carta é, hoje, sabida de cor por quase toda criança de Rafard (a cidade que tenta adotar a artista como seu patrimônio cultural e onde fica a fazenda na qual ela nasceu): "Como agradeço por ter passado na fazenda a minha infância toda. As reminiscências desse tempo vão se tornando preciosas para mim. Quero, na arte, ser a caipirinha de São Bernardo, brincando com bonecas de mato, como no último quadro que estou pintando." O quadro a que ela se refere, A Caipirinha, de 1923, também já é bem conhecido no pequeno município. Essa agitação cultural que toma conta de Rafard desde o início do ano objetiva muito mais do que a fama. "Alguns ensaios sobre Tarsila insistem em dizer que os períodos Pau-Brasil e Antropofágico são uma análise social, mas na verdade, como confirmam outros críticos, é tudo rural, interiorano, reflexo da vida dela nas fazendas da região", afirma Rita de Cássia Martins, coordenadora de cultura da Prefeitura de Rafard. Segundo ela, todos os esforços da cidade para conservar a memória da artista na região onde nasceu ? como o museu e as exposições itinerantes pelas escolas ? buscam principalmente difundir essa riqueza cultural e a preocupação que Tarsila tinha em expressar a roça em seus quadros.Cores fortes ? Esse ímpeto apaixonado que Rafard vem nutrindo pela "caipirinha" Tarsila é na verdade a busca por uma unidade regional, uma identidade peculiar ao lugar, embarcada numa carona "post-mortem" da ideologia precoce e inconsciente da artista. Assim, a face da camponesa pintora não mereceria um destaque entre toda sua vivência acadêmica? "Embora ela tenha sempre assumido suas inspirações sertanejas, principalmente depois de 22, e boa parte da crítica tenha reforçado na época essa influência em sua obra, muitas pessoas ainda se apegam às informações sobre sua vivência na Europa e com a intelectualidade da época", explica Tarsila do Amaral, sobrinha-neta da artista, que está finalizando uma nova biografia sobre a modernista. Segundo ela, a tia chegou até mesmo a ser repreendida pelos seus professores europeus ? como Léger e Gleizes ? por causa das cores fortes que usava e das figuras singelas em suas obras, que beiravam o naïf. Tarsila sempre defendia e explicava, porém, que eram as cores da sua terra e aquela era a simplicidade com a qual havia crescido e aprendido a amar. Nas histórias sobre a pintora, esse lado, puramente decorrente de sua infância e da sua vida no campo, está um pouco apagado, ausente ? uma lacuna questionável dada a importância desse contexto. "Essa será a primeira biografia sobre Tarsila que contará a fundo seu lado mais humano, mais particular; no livro haverá muito espaço para sua vida familiar, por exemplo", antecipa a sobrinha. Apesar da outra biografia existente, Tarsila ? Sua Obra e seu Tempo (Edusp Editora, 1986), ter sido escrita também por uma parente, o livro trata muito mais de análises técnicas e históricas dos períodos de sua arte do que de sua vida propriamente dita. Tal erudição é principalmente decorrente do perfil literário da ensaísta Aracy Amaral, renomada crítica de arte. Há ainda uma terceira biografia, Tarsila do Amaral ? A Modernista (Senac Editora, 1998), de Nádia Battella Gotlib, que tange o clima familiar pelas entrevistas com uma prima afastada de Tarsila, embora um tanto desconsiderada pela maior parte da família. "Tarsila tinha um espírito elevado, otimista, e as histórias de sua vida pessoal são a principal referência disso; por isso, achei importante destacar sua vida particular nesse livro", explica Tarsila. Vida fora-da-arte ? Desde as amas-secas negras (que inspiraram A Negra, em 1923), até as histórias que contavam sobre figuras monstruosas, de pés e mãos imensos que caíam do telhado da casa na fazenda (que inspiraram Abaporu, em 1928), tudo remonta a essa riqueza da vida fora-da-arte pouco conhecida de Tarsila do Amaral. Todo mundo sabe que esteve casada com Oswald de Andrade, mas poucos conhecem sua vida com primeiro marido, André Teixeira Pinto, ou com o último, Luís Martins, 20 anos mais novo que ela.Suas visitas à Paris e Moscou todo mundo conhece, mas pouco se sabe sobre seus diversos retornos às fazendas da família, às vezes acompanhada dos amigos modernistas, como Mário de Andrade, Minotti Del Pichia, Anita Malfatti e Heitor Villa-Lobos. A forte atividade cultural de Rafard e a nova biografia da sobrinha são pretextos perfeitos para essas novas leituras, que nos remetem a esse ambiente caipira e familiar, o mais visível e, paradoxalmente, o menos conhecido de Tarsila do Amaral.

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