Rembrandt, Picasso e você

Boa parte da formação cultural é um trabalho de desmontagem do que os parentes e professores nos ensinaram. Cultura não é apenas acúmulo de informações e domínio de conceitos; é um processo longo, conflituoso e não-linear, em que lutamos para retirar as cascas com que o senso comum - "a trama ideológica fundamental", na frase de Jacques Ellul - nos embota desde que nascemos, em osmose contínua. Ao contrário do que se diz, uma biblioteca não é um lugar silencioso, aonde vamos colher saberes como se fossem frutos; é uma arena de combate, onde pensamentos de várias épocas e lugares se digladiam, não raro causando mortes. Não há conhecimento sem conflito; e isso lhe dá vida.

DANIEL PIZA, O Estado de S.Paulo

02 de maio de 2010 | 00h00

Nada então pode ser mais estimulante do que a leitura dos grandes críticos, que se conhecem pela capacidade de ver diferente. A tradução de livros como O Projeto de Rembrandt, de Svetlana Alpers, e A Arte Moderna na Europa, de Giulio Carlo Argan, embora tardia (ambos são dos anos 80), é um exemplo. Nos últimos anos esse atraso editorial tem sido tirado, mas ainda há muito o que fazer até que pelo menos uma minoria maior entenda que arte não se mede pela imitação da realidade, que artista não trabalha só com intuição ou emoção, que o prazer de ver arte não é o mesmo de beber uma cerveja. A grande arte reflete sobre a história e o grande artista cria objetos de inteligência.

O livro de Svetlana Alpers mostra que o gênio não é esse bicho indomável que o cinema romanticamente reforça. Como Shakespeare, Rembrandt era um homem de negócios, que tentou mudar o patamar dos artistas no diálogo com os mecenas, que aceitava as encomendas e as adaptava às suas pesquisas e inquietações. Não foi incompreendido pela sociedade, não chocou a burguesia, não via conflito entre lar e rua; não fez, em suma, nada do que as pessoas ainda acham que um grande artista faz. Mas primeiro dominou a tradição e depois criou sua obra original. Só perdeu prestígio quando o gosto de seu tempo mudou, e ele foi considerado antiquado justamente no momento em que atingia seu apogeu. A posteridade se encarregou de ver que nenhum contemporâneo o igualou.

Se você acha que ser moderno é ser o oposto disso, leia o que Argan tem a dizer. É claro que ele mostra que a arte moderna, nascida no contexto do Iluminismo, é bem diferente da legada pelos "old masters" como Rembrandt. Fala muito sobre isso em seus artigos sobre Turner, o pintor inglês, finalmente ressurgindo em outros livros e exposições. Há uma velha disputa pela condição de "primeiro pintor moderno", que inclui Goya e Delacroix; certamente Turner está entre eles. Mas, se o papel do artista moderno se definiu pelo desafio às convenções academicistas, isso não significa que fosse suficiente para produzir grande arte. Argan descreve como Picasso era clássico e romântico ao mesmo tempo, como assimilou a tradição para poder reinventá-la com liberdade. Se chocou os conservadores de sua época, também ganhou muito dinheiro e fama - e hoje se formam filas para vê-lo em qualquer canto do planeta. O que não o faz fácil.

Esqueça tudo que lhe ensinaram sobre genialidade, modernidade, inspiração, cultura. A história é uma colagem de aprendizados e rupturas, não um arquivo morto. É isso que Rembrandt ou Picasso nos ensinam, e o senso comum não.

Cadernos do cinema (1). Tim Burton, cuja exposição no MoMA tem formado filas imensas, percebeu em Alice o que nem mesmo alguns críticos perceberam: que Lewis Carroll não estava apenas contando histórias para agradar às crianças, mas satirizando a sociedade de seu tempo e lugar. Às vezes leio que Carroll teria feito uma obra para exaltar a fantasia, o inconsciente, etc. Mas convém lembrar que ele era um fã da lógica, dos jogos que revelam seus paradoxos, e um adversário do moralismo, da pretensão de trancafiá-la em retidões comportamentais. Foi por isso que Burton uniu os dois livros (Alice no País das Maravilhas e Através do Espelho) e fez sua Alice começar com 19 anos, à beira de ser empurrada pela sociedade para um casamento obrigatório. E mostrou naqueles adultos a mesma fauna que ela via nos sonhos, com seus formalismos, hipocrisias e covardias. O que Alice enfrenta é a tirania puritana.

O filme é muito sofisticado na direção de arte, figurino e fotografia, com atores como Johnny Depp e Helena Bonham-Carter e efeitos incríveis na distorção das escalas entre os personagens. O 3-D é quase acessório, servindo apenas para aumentar o impacto das cenas de ação, como a luta contra o Jaguadarte. ("Era briluz. As lesmolisas touvas roldavam e relviam os gramilvos"... Eu já soube de cor esse poema na tradução de Augusto de Campos.) Só que a leveza de Carroll se perdeu, suas digressões e brincadeiras com as palavras, sua narrativa episódica. Tim Burton fez um filme um tanto pesado e, como se precisasse garantir a audiência, convergindo no final para uma batalha entre bem e mal, num xadrez high-tech. Mas de uma beleza única.

Cadernos do cinema (2). O filme Brideshead Revisited, que em português ganhou o beócio complemento Desejo e Poder, não acrescenta nada à famosa série da TV Granada, com Jeremy Irons, Anthony Andrews e Laurence Olivier, feita em 1981 e depois exibida pela TV Cultura (bons tempos em que a TV Cultura exibia séries assim e outras como O Choque do Novo e Civilização). Até o elenco tem extrema semelhança física, mas não, claro, o mesmo talento, a mesma percepção para as sutilezas em jogo, para os modos aristocráticos. É um filme correto e fluente, mas em nenhum momento sentimos o fascínio de Charles Ryder pelo palácio de Brideshead e pela família Flyte, fascínio que no romance de Evelyn Waugh é uma mistura de esteticismo e materialismo, de afeto, afetação e ambição. O décor, mais uma vez, tomou o lugar da ambivalência.

De la musique. Na lista de 50 canções para um iPod básico, dois intérpretes ficaram como se fossem os autores: Luar do Sertão, cantada por Luis Gonzaga, é de Catulo da Paixão Cearense e João Pernambuco; e Georgia on My Mind, por Ray Charles, é de Hoagy Carmichael e Stuart Gorrell. Também faltaram os parceiros de Noel Rosa em Feitiço da Vila, Vadico, e de Pixinguinha em Carinhoso, João de Barro. Estou certo de que ninguém teve dificuldade de localizar essas canções.

Miniconto. Achava que era um sujeito bem resolvido, até que um dia refez as contas e viu que tinha errado numa vírgula.

Por que não me ufano (1). Me lembro de ter entrevistado Ciro Gomes pela rádio há alguns meses. Às perguntas sobre suas pretensões políticas, porque se punha como pré-candidato à Presidência e ao mesmo tempo transferira domicílio eleitoral para São Paulo, respondeu com a empáfia de sempre, como se fosse uma decisão que afetaria o destino da nação. Agora ele já não é candidato nem a presidente da República nem a governador paulista. E a nação não está nem aí.

Por que não me ufano (2). O debate sobre a volta da curva ascendente da Selic não deveria ser sobre se o Banco Central fez certo ao aumentar os juros, com medo do efeito da inflação e das importações sobre a moeda. Deveria ser sobre os motivos que impedem que toda vez que o Brasil cresce ao ritmo de 5% (ou mais) o freio precisa ser pisado. Isso envolve a estrutura tributária, que leva a juros de até 15% ao mês (!) nos cartões de crédito; a estrutura fiscal, pois os gastos públicos deram um salto de baixo retorno; e a política comercial, já que o Brasil continua dependendo de vender commodities para a China. Mas esta reflexão precisa vencer a bitola desenvolvimentista - dos que acreditam que o Estado pode tudo, como Lula querendo construir Belo Monte só com dinheiro público.

Por que não me ufano (3). Por falar nisso, as comemorações aos 50 anos de Brasília foram recheadas de ufanismo, preocupadas sobretudo em dizer que a cidade já se distanciou da maquete, para o bem e mesmo para o mal. Mas pouco se falou sobre esse urbanismo que põe o Estado no topo da pirâmide social, como eixo determinante de tudo que se faz e fará ao redor. Juscelino Kubitschek acreditava que plantar os monumentos líricos de Niemeyer no planalto central faria a economia avançar Brasil adentro. Meio século depois, o desenvolvimento que tomou o cerrado pouco teve a ver com ações públicas - exceto o apoio técnico de uma Embrapa -, e sim com as forças de produção dirigidas ao mercado; e ainda há muita desigualdade regional, muita diferença de IDH entre litoral e sertão. Brasília é uma ode arquitetônica ao poder, não a musa do Brasil moderno.

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