Religião, folclore e ópera

Diretor antecipa os detalhes da produção de A Valquíria, que estreia em novembro no Municipal

João Luiz Sampaio, O Estado de S.Paulo

11 de setembro de 2011 | 00h00

O Teatro Municipal de São Paulo completa 100 anos amanhã. E, enquanto uma nova produção do Rigoletto, de Verdi, comemora o aniversário, os olhos e ouvidos do público se voltam para uma das próximas óperas a ocupar o palco agora centenário, em novembro: A Valquíria, de Richard Wagner, um dos pilares do repertório lírico.

A expectativa é justificada. A obra foi encenada no Municipal pela última vez nos anos 50 - antes disso, havia sido produzida apenas nos anos 20. A Valquíria é a segunda parte da tetralogia O Anel do Nibelungo, que nunca foi apresentada na íntegra em São Paulo - e nos faz desejar que a montagem de novembro possa ser o início deste projeto mais amplo. Enquanto isso não acontece, porém, o diretor cênico André Heller Lopes trabalha em sua concepção, que vai propor uma "Valquíria brasileira".

"Quando o convite para fazer Valquíria surgiu, eu estava entregando minha tese de doutorado sobre a ópera nacional no Brasil do século 19, ou seja, impregnado desse universo onde se formou boa parte do que ainda hoje reconhecemos como cultura brasileira - e também a época contemporânea a Wagner e seu Anel. Além disso, quando acompanhei os ensaios da Valquíria feita em Manaus, em 2002, me chamou muito a atenção uma imagem: os cantores, de figurino, sendo fotografados na selva. Na minha cabeça, se estabeleceu a mistura interessante da floresta, do conteúdo brasileiro, com esses personagens. Assim surgia a ideia deste Anel brasileiro, em que a floresta - e também a cidade - entrassem nesse "universo tão universal" de Wagner", explica o diretor, que trabalha ao lado do figurinista Marcelo Marques, do cenógrafo Renato Theobaldo e do iluminador Fabio Retti. A direção musical e regência será de Luiz Fernando Malheiro.

Brasil em evidência. A Valquíria, estreada em 1876, narra a história do deus Wotan que, na busca por um mundo baseado no amor, corrompe-se e é confrontado com sua própria falibilidade. Trata, explica Heller, de temas como as relações humanas, a relação do homem com Deus, do homem com o poder. "Esses temas se prestam à nossa necessidade atual de discutir o Brasil." E que Brasil é esse que o diretor pretende retratar? "Estamos acostumados a tratar como brasileiro apenas aquilo que é folclórico, mas isso é redutor. Nesse sentido, um Anel à brasileira é uma encenação que colocará em foco os diversos mundos que formam nossa cultura - o universo dos imigrantes, a religião, o folclore - tentando entender e defender como somos, que é o samba, é Carmen Miranda, mas também é a ópera. Na saga da queda dos deuses, do surgimento de uma nova raça livre, está também a discussão da nossa identidade cultural, num momento em que o Brasil se encontra em muita evidência. O grande desafio é unir esse conceito moderno com o tradicional, o clássico que é minha formação como diretor especializado em ópera", completa. "E quando nos damos conta de que vamos estar no mesmo palco que, em 1922, abrigou a Semana de Arte Moderna, que também discutiu à sua maneira a identidade nacional, o conceito se fechou na minha mente."

E como esse conceito se traduz em cena? Primeiro, os cenários. "Cada ato terá um foco específico. No primeiro ato, que se passa no mundo dos homens, a ideia é retratar a São Paulo do século 21, o conceito de modernidade. Já no segundo ato, quando estamos na morada, no refúgio dos deuses, a influência principal é o século 19, o século de Wagner, que ainda influencia profundamente nossa vida cultural. E, no terceiro ato, quando caem os heróis, cujas almas são levadas pelas valquírias, o folclore ganha protagonismo na cena."

Para cada ato, há também símbolos e temas que serão desenvolvidos. No primeiro, Heller quer falar da imigração. No segundo, da herança da cultura católica, da religiosidade, "em um diálogo com o universo ibérico e também com o Nordeste brasileiro". O fogo será a presença fundamental no terceiro ato.

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