Religião e morte no México de hoje

Carlos Fuentes utiliza o noticiário como matéria-prima para a trama de Adão no Éden, um 'romance jornalístico'

Carlos Granés, O Estado de S.Paulo

06 de agosto de 2011 | 00h00

Desde 2007, quando o presidente Felipe Calderón decidiu enfrentar abertamente os grandes chefões do narcotráfico, os confrontos entre cartéis, sicários e forças armadas deixaram mais de 40.000 pessoas mortas. Os mexicanos acordam diariamente com notícias atrozes sobre pessoas enforcadas, decapitadas, fossas comuns, vinganças e uma exasperante trama de corrupção que torna impossível impor a justiça, tampouco debilitar o poder dos bandos ilegais. Este é o presente que se vive no México. E é também nesse contexto que transcorre a história de Adán en Éden (Adão no Éden), o mais recente romance de Carlos Fuentes traduzido no Brasil.

Fuentes descreveu seu trabalho como um "romance jornalístico", que se serve da informação veiculada em jornais e noticiários da TV como matéria-prima para a ficção. Se em romances como Terra Nostra ele explorou o passado, em outros como La Silla del Águila (A Cadeira da Águia) o futuro, no caso de Adão no Éden ele se fixa no presente, nada mais do que o presente.

Dois personagens antagônicos e complementares são os protagonistas da trama. Adán Gorozpe e Adán Góngora. O primeiro é um arrivista que fez fortuna graças ao apoio do sogro milionário, o Rei do Biscoito. O segundo é um obscuro e corrupto delegado de polícia, que conquista poder fingindo combater o narcotráfico quando, na realidade, só aprisiona a empobrecida classe média, mata inocentes para fazê-los passar por guerrilheiros e deixa intactas as estruturas criminosas dos grandes chefões do tráfico.

Como é frequente nos romances de Carlos Fuentes, dois grandes poderes empreendem uma luta mortal para controlar o país. Neste caso, o poder econômico personificado por Adán Gorozpe enfrenta o poder policial representado por Adán Góngora. E o faz jogando as mesmas cartas: delinquência, terror e morte. Num país em que o Estado não funciona, tampouco o mercado, ou a cultura (dominada pelo poeta Maximino Sol, tão talentoso quanto despótico e sectário), as instituições, e nem a polícia, há somente duas forças que se impõem de maneira implacável: a violência e a fraude. Adán Gorozpe contrata um esquadrão de mercenários alemães, antigos membros da Stasi (polícia secreta da antiga Alemanha Oriental), para apagarem o incêndio mexicano adicionando mais gasolina. A solução final, o fascismo enamorado da morte pregado por Adán Gorozpe vence o fascismo enamorado da corrupção defendido por Adán Góngora.

E enquanto tudo isso sucede, a opinião pública só manifesta interesse pelas aparições de um menino apóstolo, que não tem mais do que 11 anos, que detém o tráfico assegurando ser um enviado de Deus. "A grande distração da fé", aquele "embuste milenar", converte-se no melhor aliado de Adán Gorozpe, que não hesita em financiar o pequeno messias e sua mãe, a falsa Virgem, para continuarem dando o seu espetáculo e desviando a atenção.

Religião e morte. No final, são esses dois poderes que se impõem no México concebido por Carlos Fuentes. O revólver e a cruz matando e vedando os olhos, para ninguém ver quem semeia de cadáveres as sepulturas.

CARLOS GRANÉS É DOUTOR EM ANTROPOLOGIA SOCIAL PELA UNIVERSIDADE COMPLUTENSE DE MADRI E AUTOR, ENTRE OUTROS, DE LA IMAGINACIÓN - ANTROPOLOGIA DE LOS PROCESOS CREATIVOS : MARIO VARGAS LLOSA Y JOSÉ ALEJANDRO RESTREPO (CONSEJO SUPERIOR DE INVESTIGACIONES CIENTÍFICAS DE MADRID)

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