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Releituras e lembranças

Se “ser pequeno” não era fácil, “ficar grande” é ainda mais complicado. E tudo isso, como diria Schopenhauer, para acabar morrendo...

Roberto DaMatta, O Estado de S.Paulo

18 de novembro de 2020 | 03h00

O que ocorre quando você, um velho-adolescente, vê uma fotografia onde você aparece abraçado a uma pessoa amada que partiu? Ou quando você examina com seus olhos banhados de incredulidade aquela sua fotografia como uma inocente criança de três “aninhos” como sua saudosa mãe datou e escreveu? E você hoje é um vivente de barba branca, com uma memória entupida de casos e, de quebra, há o andar claudicante?

Algo semelhante acontece quando você se permite pensar como era aquele menino que acreditava em Papai Noel e na cegonha. Que imaginava ser um super-herói, e ir para uma guerra porque você só sabia de batalhas navais e de guerra de sapatos com seus irmãos. Suas trincheiras eram travesseiros e nos seus combates não havia sangue nem destruição – ou a imoralidade de gastar jovens vidas em troco de geopolíticas. 

Se “ser pequeno” não era fácil, “ficar grande” é ainda mais complicado. E tudo isso, como diria Schopenhauer, para acabar morrendo... Viver com honra e jovialidade requer um enorme heroísmo – essa coisa que só quem é verdadeiramente humano tem.

Quando você é criança, o futuro não existe; na juventude que se vê eterna o presente é dominante. Na idade terminal (com minhas desculpas a um realismo que o Brasil detesta), você se pega vislumbrando (graças ao bom Deus) a distância suas múltiplas vidas. 

Somos sólidos, pastosos e líquidos. Filósofos já falaram que cada um de nós é um indivíduo e uma multidão geralmente em conflito. Crescer, amadurecer e envelhecer leva a um saudável e necessário distanciamento e a uma inevitável e paradoxal aproximação de si porque não somos sólidos: somos tudo. De modo que certas pessoas mergulham nas nossas águas, enquanto outras quebram a cara quando esbarram no concreto do nosso ser. Como uma doce namorada transformou-se em puro aço inoxidável no dia em que lhe dispensou? Ou um filho amado passou a residir dentro do seu coração?

Um teste simples dessas distâncias ocorre quando você decide ler o que escreveu. A leitura da redação de português realizada no ensino médio seria certamente fatal. O mesmo poderia ocorrer na releitura de uma carta de amor ou de uma poesia. Sempre escrevi diários e hoje eu os leio com um misto de masoquismo e curiosidade porque neles eu vejo um sujeito comum entupido de presunção. 

A escrita – esse multipensar de consequências imprevisíveis que faz e desfaz o mundo e domestica, como disse o antropólogo Jack Goody, o “pensamento selvagem” fundado somente na palavra falada. A escrita cimenta o passado e revela nossas pretensões de eternidade. O escrito exibe a finitude dos escrevinhadores. Escrever é, conforme dizem os mitos e os livros sagrados, uma máquina do tempo.

Ao escrever um novo livro, feito de ensaios escritos e publicados há décadas, intitulado Você sabe com quem está falando? Estudos sobre o autoritarismo brasileiro, fui forçado a uma releitura de mim mesmo. 

Como não sou um narcisista cretino, foi um suplício (permeado de felicidade) ler o que escrevi há quatro décadas. Foi também uma reencarnação em mim mesmo, mas sentindo forte o pulsar de minha finitude. E, além disso, da minha ousada ignorância, porque o que eu sei, estudei e, com a inocência da juventude, tive a coragem de escrever me imortalizava e me tornava penosamente defunto.

Ninguém esgota nenhum assunto. E nenhum assunto – exceto o mistério eterno e vazio da morte – tem a perenidade do esquecimento. 

Quando nos relemos, nos achamos perdidos no soluço de um choro invejoso ao lado de um risonho alento. Sempre era possível, eis o desafio insolúvel da escrita, fazer melhor. Com mais vigor, elegância, nitidez e sabedoria. 

Não é fácil descobrir quantas vezes morremos e ressuscitamos. Ou melhor, parimos a nós mesmos por meio de palavras. Engano pensar que morremos somente uma vez porque, de fato, perdemos o nosso coração e a nossa alma inúmeras vezes. Deus sabe muito bem o quanto pertencemos ao Diabo. 

Enquanto isso, o Nada fechado, como a Esfinge, em si mesmo é o que nos aguarda no sereno e estranho sono. Pena que os que amamos não possam estar conosco porque na morte o conosco deixa de existir. 

É HISTORIADOR E ANTROPÓLOGO SOCIAL, AUTOR DE ‘FILA E DEMOCRACIA’

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