Releitura autoral

Ricardo Linhares diz que "ninguém mais lembra" da Saramandaia original e fala sobre mudanças na trama

CRISTINA PADIGLIONE , ENVIADA ESPECIAL / RIO, O Estado de S.Paulo

04 de junho de 2013 | 02h07

Primeira novela a explorar o realismo mágico na TV brasileira, Saramandaia tem pouquíssimas imagens preservadas. Sequer o texto foi encontrado na íntegra por Ricardo Linhares, autor que propôs à direção da Globo a releitura da obra de Dias Gomes. A nova versão contará com novos personagens, em papéis criados para Fernanda Montenegro, Tarcísio Meira e Lília Cabral, a quem caberá engatar o romance que faltava no original.

Linhares trabalha com a certeza de que ninguém se lembra da história original. Divide o texto com Ana Maria Moretzsohn, Nelson Mandotti e João Brandão. A direção-geral é de Fabrício Mamberti e a direção de núcleo, de Denise Saraceni. Com quase metade da história já traçada, ele antecipou detalhes do trabalho ao Estado, em seu apartamento, no Rio.

Quem assistiu ao original vai se surpreender com o que?

Com as relações amorosas, com a trama de romance, de folhetim, que não havia na primeira versão. A primeira versão, além de ser uma metáfora da ditadura, inaugurando o realismo mágico na televisão, não tinha histórias de amor. Criei todo um núcleo pra ter uma história de amor entre a Lília Cabral e o José Mayer, que é o Zico Rosado (Castro Gonzaga no original). Criei diversos personagens, muitos deles com traços de realismo mágico, e tenho uma experiência com novelas de realismo mágico. Posso dizer que 50% da novela atual veio da novela do Dias e 50% foi criado por mim.

Quais os papéis da Fernanda Montenegro e do Tarcísio Meira?

O Tarcísio faz o pai da Lília e a Fernanda faz a mãe do Zé Mayer. Eu criei uma história de rivalidade entre duas famílias, o que é muito comum nas cidades menores no Brasil. São famílias que há uns 200 anos brigam pelo poder na região, uma relação de amor e ódio. Trato isso em três gerações. Originalmente, não havia romance.

Como será retratado hoje

o que era metáfora sobre

a ditadura?

Hoje não existe a necessidade disso ser tratado metaforicamente. O personagem do Zé Mayer é um ex-prefeito corrupto, todo mundo sabe que ele é corrupto, que ele mandou e desmandou, existe todo um grupo de jovens na novela que se espelham em jovens da vida real. Naquela época não se podia falar que algum prefeito era ladrão. Então, ela é contemporânea nesse sentido.

Você tem sido cobrado pelo saudosismo de quem gosta de comparar versões da obra?

Ninguém lembra dessa novela. As pessoas falam muito da Dona Redonda, só que a Dona Redonda explode no capítulo 26 no original e é um personagem sem nenhuma importância. Mas é o primeiro personagem que explode na televisão brasileira, entrou para a história por causa disso e virou antagonista do Gibão, que tem asas.

Mas ela vai explodir, né?

Vai explodir, não sei quando, mas vai. Já cheguei na metade da novela e ainda não a explodi, não (risos). As pessoas lembram da novela, mas não lembram da história da novela porque não tinha história. Eu quis fazer essa releitura de Saramandaia pra aproveitar esses personagens do Dias, que são ótimos - o João Gibão, a Dona Redonda, o Zico Rosado, o Seu Encolheu, marido da Dona Redonda, o Aristóbulo, que é o professor, essas coisas é que ficaram. Isso é o que eu quis usar, mas criando toda uma história nova, dentro de uma temática contemporânea. Originalmente, a história se passava em uma cidadezinha do interior. Hoje em dia, não. Tem computador, celular, televisão.

Isso está tudo no presente?

É hoje em dia, Bole Bole podia ser Santos (SP), ou Macaé (RJ), uma cidade menor, mas contemporânea. Não tem sotaque, não é novela nordestina e não fica localizada em nenhum estado específico. Fica no interior do Brasil. Gabriela teve sotaque. Saramandaia vai ser a primeira comédia das 23 h. O Astro foi drama, Gabriela foi de época e essa é comédia.

Quantos capítulos terá?

São 57, uma novela bem enxutinha. Primeiro porque não existia uma história original com fôlego pra uma novela e faz parte também da decisão da Globo. Encaro mais como macrossérie do que como novela. Quando a novela estrear já vou ter escrito 2/3 dela. E tenho que entregar os capítulos com muita antecedência porque tudo envolve efeitos especiais. Eles precisam de muita antecedência para o Gibão voar.

Sabe como faziam naquela

época para o Gibão voar?

O Gibão só voava na última cena do último capítulo. Por isso é que eu te digo que ninguém lembra da novela, as pessoas têm vagas lembranças dos personagens. João Gibão passou a novela inteira sem mostrar que tem asas, sem ninguém dizer que ele tem asas. Eu já mostro logo de cara que ele voa.

Além das asas, formiga, Dona Redonda, o que mais a gente pode esperar de efeitos?

Tem muito. A criação da cidade da novela é feita no computador. Ela é toda virtual. Você vai ver uma cidade de verdade, em cima de um morro, cercada de canaviais, mas tudo isso está sendo criado por computador. Todo capítulo tem um lado enorme feito em computador. É diferente da cidade com pracinha feita no Projac. Você vê toda amplitude da cidade, o entorno, com becos e tal. Por isso é que eu digo que ela não se situa em um lugar. Uma parte foi gravada em Lençóis do Maranhão, outras, em fazendas do interior de São Paulo, e tudo isso se junta pra fazer o cenário da cidadezinha, os canaviais vieram do Estado do Rio e de São Paulo também.

Acredita que as séries americanas atuais, acessíveis ao público que vê novela, interferem nas exigências da audiência?

Acho que interferem, sim, mas não é só o seriado americano, que fala para uma parcela minúscula da audiência brasileira. A gente não pode achar que os Jardins, em São Paulo, e a zona sul do Rio sejam parâmetros para o Brasil. Não são, mas a vida hoje em dia é acelerada, tudo está mais acelerado. As pessoas esperam ver mesmo coisas mais aceleradas na televisão, em novela, seriado, mas essa urgência em contar uma história faz parte da urgência da vida. A novela, hoje, tem que ter outra dinâmica, com cenas mais curtas e histórias mais ágeis. Isso faz parte não do seriado, mas da vida.

RICARDO LINHARES

DRAMATURGO

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