Relato do inferno em primeira pessoa

Em ritmo de romance, historiador britânico recorre a testemunhos de 'gente comum' para descrever a 2ª Guerra

O Estado de S.Paulo

24 de novembro de 2012 | 02h09

MARCOS GUTERMAN

O historiador britânico Max Hastings considera a Segunda Guerra Mundial o maior evento da história da humanidade. Com essa dimensão, tal conflito já mereceu milhares de livros, e parecia impossível que algum novo trabalho pudesse descrevê-lo de maneira original. No entanto, eis que aparece o surpreendente Inferno: O Mundo em Guerra, 1939 -1945, lançado agora no Brasil pela Intrínseca. Nele, Hastings, respeitado autor de vários títulos sobre o tema, sempre com viés militar, resolve desta vez dar voz à "gente comum" - e se propõe a reconstruir o confronto por meio do dramático colorido da "experiência humana". O resultado é uma obra que se lê como um romance eletrizante, numa engenhosa colagem de fragmentos de impressões daqueles que viveram a tragédia da guerra na própria pele.

Par a "iluminar o que significou o conflito para uma multidão de pessoas comuns", Hastings ilustra cada episódio importante da guerra, em ordem cronológica e em todas as frentes, por meio de registros de testemunhas, muitas das quais pareciam ter consciência de que viviam um momento único. Em 1945, em meio à destruição de Berlim, uma alemã escreve em seu diário que a história, quando "vista de perto", é "muito mais incômoda" do que seu relato posterior faz supor. Em seguida, ela arremata, resignada: "Amanhã sairei à procura de urtigas e um pouco de carvão".

A leitura desses relatos, que Hastings resgata do anonimato, conduz a um curioso contraponto com as platitudes que se perpetuaram sobre a guerra. A "luta do bem contra o mal", slogan alimentado pelos Aliados e que contaminou boa parte da historiografia sobre o conflito, é matizada por quem estava nas trincheiras e viu que o mal, afinal, estava em toda parte. "O povo das democracias precisa acreditar que o bem se opõe ao mal - daí o espírito das cruzadas", escreve um tenente britânico. Para esse observador privilegiado, era necessário criar "falsas convicções" para desviar a atenção do fato de que a guerra era, afinal, como definiu Clausewitz, apenas "uma extensão da política", isto é, "um exercício com objetivos finitos e alcançáveis".

Mesmo destacando que a violência excessiva era moeda corrente nessa guerra particularmente brutal, Hastings e sua "gente comum" não deixam de observar a falência moral dos comandantes militares nazistas. Um soldado britânico mal pôde esconder o horror que sentiu após uma batalha na França em que a Luftwaffe mostrou o seu potencial destrutivo: "Em todas as estradas, havia pessoas mortas, sem braços, sem cabeças, animais mortos pelo chão, crianças minúsculas, pessoas idosas. Não um ou dois, mas centenas, para todos os lados". Mesmo para alguém provavelmente habituado à crueldade da guerra, a atitude dos alemães era chocante.

Nesse ponto, Hastings retoma uma teoria usada por outro importante historiador da Segunda Guerra, Antony Beevor, segundo a qual os soldados alemães eram mais bem preparados do que os militares das democracias porque eram "desatinados" o suficiente para lutar "até o fim", enquanto os Aliados se orgulhavam de seu comportamento como "homens razoáveis". Enquanto os nazistas avançavam sem piedade, o estado de espírito dos soldados aliados pôde ser observado num episódio de "histeria coletiva" envolvendo militares franceses, quando imaginaram a chegada de tanques alemães, em maio de 1940. O comandante local descreveu "uma onda de fugitivos aterrorizados, metralhadores e soldados de infantaria, em carros ou a pé, muitos sem armas, mas arrastando mochilas, corriam desabalados pela estrada". Os "tanques alemães" que eles acreditaram ter visto eram, na verdade, franceses.

Do mesmo modo, é impensável supor que os ingleses aceitassem enfrentar um sacrifício semelhante ao que os russos foram submetidos por Stalin - como diz Hastings, é mais provável que eles entregassem Londres antes de encarar um cerco como o de Leningrado, entre 1941 e 1944. A descrição da fome crescente é uma das passagens mais impressionantes do livro. Um relatório do NKVD, órgão de segurança do Estado soviético, informa que "uma mulher, totalmente acabada e desesperada, disse que, quando o marido morreu de cansaço e por falta de alimento, ela cortou-lhe um pedaço da perna para alimentar a si mesma e aos filhos". Para Hastings, "as aflições de Leningrado transformaram-se numa demonstração de força moral que somente uma tirania poderia ter imposto e que provavelmente apenas os russos poderiam suportar".

As democracias ocidentais, porém, também eram capazes de cometer atrocidades, apesar dos valores civilizados que diziam defender. O governo de Winston Churchill, campeão do mundo livre, recusou-se a fornecer mais alimentos aos castigados indianos, e a fome cobrou a vida de até 3 milhões de pessoas, resultado daquilo que Hastings, sem meias-palavras, descreve como "brutal insensibilidade" do primeiro-ministro britânico. Observando-se em perspectiva, é evidente que, a despeito de vários importantes crimes de guerra e de outros tantos erros diplomáticos, não há equivalência moral entre a crueldade colonialista de Churchill e o totalitarismo de Hitler e Stalin. No entanto, é possível dizer, como fez um tenente nazista em uma carta à família, que a Segunda Guerra, definitivamente, não era "uma guerra entre cavalheiros". Nela, anotou, "a vida humana é tão barata, mais barata do que as pás que usamos para tirar neve das estradas".

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