Relato de uma distopia

Alfred e Emily, de Doris Lessing, fala dos pais e do surgimento de sua vocação

Vinicius Jatobá, O Estado de S.Paulo

24 de julho de 2010 | 00h00

ALFRED E EMILY

Autora: Doris Lessing

Tradução: B. Vieira e Heloisa Jahn Editora: Companhia das Letras

(272 págs., R$ 49)

Poucos autores são tão obcecados quanto à inglesa - nascida na Pérsia - Doris Lessing. Ganhadora do Prêmio Nobel de Literatura de 2007, ela escreve, por mais de meio século, o mesmo livro - e Alfred e Emily é mais um exercício de investigação sobre a origem da vocação.

Os livros de Doris Lessing são rudes narrativas que dramatizam esse momento básico da vida humana: como brota uma ideia? Seja o nascer da relação do corpo com a política em O Carnê Dourado, ou a vida deformada de ideologia de O Sonho Mais Doce, a magia de Eros em Amor, De Novo ou as agruras da vocação literária em suas memórias, Lessing está sempre pesquisando esse sentimento de origem que o ser humano funda em total autoengano quando se propõe a construir sua vida. Os arcos de seus livros são claros: nasce a ideia; nasce um novo humano pela paixão por essa ideia; o mundo revela o idealismo dessa pessoa; o mundo destrói e dilacera essa pessoa.

Sendo Doris Lessing tão Doris Lessing, Alfred e Emily possui todo fel característico da autora. A estrutura narrativa é engenhosa: as vidas de Alfred e Emily, os pais de Lessing, merecem dois tratamentos. Na primeira metade, ela reinventa a vida de seus pais dando-lhes um passado feliz e satisfatório - joga com os talentos que tinham e especula como seriam prósperos se não tivessem sido esmagados pela 1ª Guerra. Vida burguesa, amores furtivos, conforto e senso de satisfação recebem um tratamento generoso e, até certo ponto, paródico e farsesco que esconde um tremendo senso de ironia.

A segunda parte do livro é o ensejo venenoso da guerra: o passado verdadeiro, a sina, a doença: a vida colonial em Rodésia do Sul, a frustração com a fazenda, o profundo desamor do casal, o cotidiano mitigado e, principalmente, o envenenamento do afeto da filha que cresce odiando os pais. Em tempos de tedioso bom-mocismo, Lessing se mantém como um saudável anacronismo.

Esse jogo de contrarrelato possui um efeito narcotizante porque, no fundo, esse belo quadro que Lessing constrói na primeira metade do livro, apesar de ser diretamente endereçado à sua dor pessoal, à sua relação com seus pais, acaba por englobar todo um sentido exemplar: de toda uma geração que foi arrancada de seus destinos naturais para a fatalidade da guerra e do colonialismo. Aí que nasce o engenho tosco de Lessing: se ela apenas escrevesse o que realmente aconteceu, sem estabelecer um contraponto, a estória infeliz de seus pais jamais tomaria a força trágica que adquire após o final da leitura do romance.

VINICIUS JATOBÁ É CRÍTICO LITERÁRIO

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