Ronaldo Gutierrez/Divulgação
Ronaldo Gutierrez/Divulgação

Relato de um certo oriente

Zé Henrique de Paula monta Casa/Cabul, peça de Tony Kushner sobre o Afeganistão

Maria Eugênia de Menezes, O Estado de S. Paulo

06 de maio de 2011 | 06h00

Difícil acreditar que tudo não passava de mera coincidência. Foi com espanto que Nova York recebeu Casa/Cabul. Quando o espetáculo entrou em cartaz, em dezembro de 2001, os ataques do 11 de Setembro mal haviam completado três meses. Escrito por Tony Kushner, o aclamado autor de Angels in America, o texto havia sido concluído antes da queda das Torres Gêmeas. O que se via em cena, porém, era de uma desconfortável atualidade: uma peça que não apenas se passava no Afeganistão, como também entrava na arena dos conflitos globais, jogando luz sobre o choque entre as culturas do Ocidente e Oriente.

Por aqui, Casa / Cabul merece agora sua primeira montagem. E a estreia no Brasil, prevista para amanhã, também chega marcada por estranha aura de sincronicidade, justamente quando o assunto volta à ordem do dia. "Acho que nunca mais terei a oportunidade de fazer uma peça em que tudo está acontecendo de forma tão simultânea, em que as ações que estão no palco ocupam também as primeiras páginas dos jornais", comenta o ator Sergio Mastropasqua.

Quem conduz a versão nacional é Zé Henrique de Paula. Coube a ele traduzir e encenar o épico de Kushner, uma estrutura em que dramas privados e questões globais se contrapõem constantemente. "Ele cria conflitos em dois níveis - um micro e outro macro. Mostra uma crise familiar inserida em um macrocosmo", aponta o encenador.

Norte-americano, o dramaturgo deslocou as ações de Casa /Cabul para Londres, no fim da década de 1990. É lá que o público vai encontrar uma dona de casa (Chris Couto) que sonha em conhecer a cidade de Cabul.

Com um guia de viagem nas mãos, ela rememora episódios da formação do Afeganistão. "Uma história que começa 3 mil anos antes de Cristo", conta. A entremear esses relatos históricos, surgem observações sobre sua própria vida, a ordem política internacional, as estranhas relações que uma potência colonial, como a Inglaterra, pode estabelecer com um país miserável, como o Afeganistão. "Não existe um eixo central. Família, conflitos étnicos, islamismo, relações entre homens e mulheres. Tudo isso aparece junto", pontua o diretor, que contou com dois consultores em temas do Oriente Médio para a montagem: Adriana Carranca, jornalista do Estado, e Sayed Mustafá, afegão que migrou para o Brasil.

Durante toda a primeira parte da peça, a dona de casa aparece sozinha em cena. É só na segunda metade que surgem outros nove personagens, entre ocidentais e orientais. E toda a trama é transportada para o Afeganistão. A mulher, que acompanhamos no prólogo, viajou para o país e desapareceu. Atrás dela, foram seu marido e sua filha: britânicos que precisarão entrar em contato com um mundo regido por outras leis e outra lógica. Para o diretor, "ao forçar esse contato, o autor faz esses dois universos colidirem. Sem ser maniqueísta, consegue traçar um retrato polifônico da questão, com pontos de vista que se complementam e se contradizem."

QUEM É TONY KUSHNER

Filho de judeus, nascido em Nova York, é autor de uma série de sucessos no teatro. Recebeu o Pulitzer pela peça Angels in America e o Oscar pela coautoria do roteiro de Munique, filme dirigido por Steven Spielberg.

CASA/CABUL - Sesc Santana. Avenida Luiz Dumont Villares, 579, tel. 2971-8700. 6ª e sáb., às 21 h; dom., às 18 h. Até 12/6. Estreia neste sábado, 7.

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