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Relativismo moral

Eles voltaram. Não os russos, que estão de volta à Crimeia, anexada à força. Eu me refiro aos praticantes de um cacoete retórico característico dos anos da Guerra Fria, conhecido em inglês como whataboutism. Funciona assim: Um americano condena a prisão indiscriminada de opositores do regime de Vladimir Putin. Um russo responde, "what about" as prisões americanas lotadas de negros e latinos?

Lúcia Guimarães, O Estado de S.Paulo

10 de março de 2014 | 02h10

Durante a Guerra Fria, um exemplo típico de whataboutism seria defensores do Kremlin contrapondo a Lei Marcial na Polônia ao apoio de Ronald Reagan aos Contras na Nicarágua. Um dissidente perseguido ou torturado não pode ser motivo de revolta enquanto não acabar o racismo no Sul dos Estados Unidos. O leitor percebe como é fácil ser um praticante desta esgrima verbal em outras latitudes onde o clima é mais quente e a hipocrisia não menos comum.

Na semana passada, duas âncoras da Rússia Today, ou RT, uma rede de língua inglesa montada pelo Kremlin para celebrar no exterior a grandeza da Rússia e a decadência do Ocidente, foram elogiadas por sua suposta coragem de denunciar a invasão da Ucrânia. Abby Martin, jovem californiana bonita e biruta, convencida de que o 11 de Setembro foi um ataque lançado pelo próprio governo americano, interrompeu uma de suas diatribes ao vivo na RT para dizer que agressão militar não se justifica nunca e que tem independência editorial para dar sua opinião. Aplausos entusiasmados da turma do whataboutism, até que o New York Times lembrou o passado lunático da comentarista, documentado num vídeo no YouTube.

No dia seguinte, foi a vez de Liz Wahl pedir demissão no ar. Igualmente jovem e profunda como um pires, Wahl disse que seus avós eram imigrantes afugentados de Budapeste por tanques russos e que tem orgulho de ser americana. Não vejo coragem em pedir demissão da Russia Today. Vejo coragem em, para começo de conversa, não se associar à máquina de propaganda de Vladimir Putin.

A Russia Today não perde um protesto pacifista em qualquer parte, uma oportunidade de documentar a opressão e a injustiça social em Nova York ou Londres. Na capital britânica, onde a esquerda caviar com seus anéis de brasão de família no dedo mindinho é mais visível, a RT dispõe de uma pletora de indignados talking heads cuja eloquência treinada em Oxford ao menos nos diverte.

Mas, a partir do momento em que milhares de soldados russos fincaram suas botas na Crimeia, armando e encorajando bandos paramilitares que aterrorizam minorias e espancam jornalistas, a Russia Today demonstrou todo seu ardor chapa branca promovendo a invasão para "libertar o povo ucraniano" da fabricada ameaça nazi-fascista. Na Rússia, o Canal Um mentia descaradamente, a ponto inventar que centenas de milhares de ucranianos estavam cruzando a fronteira em busca de asilo, usando como prova imagens na fronteira da Polônia.

Horas depois da invasão, entrevistei um renomado historiador britânico para este jornal. Timothy Snyder, da Universidade de Yale, fez críticas a Obama e a Putin mas não deixou dúvidas, como se espera de um intelectual honesto, sobre sua condenação à invasão. No dia seguinte, ao ler o debate provocado pelas palavras do historiador na seção de comentários, fui sacudida por uma realidade que conheço mal porque não acompanho daqui. A versão atualizada da polarização ideológica do Brasil, onde nunca vivemos sob o comunismo e não nos engajamos em grande escala numa guerra há 150 anos.

À medida que os fatos na Ucrânia foram se tornando mais dramáticos, notei na mídia social brasileira as mesmas trocas de acusações com jargão ideológico bolorento que pensei ter caído em desuso no século 21.

Para muitos, condenar a invasão da Ucrânia é sinônimo de aprovar a guerra no Iraque. Condenar o ditador Putin é aprovar a invasão de privacidade perpetrada pela agência de segurança nacional americana. Não existe crítica baseada na própria moralidade e sim adesão dogmática. Que raio de equivalência descerebrada é esta?

Na formação de adolescente sob a troglodita ditadura militar, minha simpatia por ideias que fariam da minha vida um inferno, se adotadas no Brasil, era uma forma de rebeldia idiota mas compreensível no mundo polarizado pela Guerra Fria.

Se não me engano, votei na chapa trotskista do diretório acadêmico da faculdade, possivelmente porque eles eram mais bonitos e mais ousados, não porque sonhasse em viver numa ditadura do proletariado. Mas, mesmo nos meus anos verdes, já percebia o ridículo quando um colega repetia frases de uma ordem distante sob o calor escaldante do bairro da Urca.

Noto cariocas bronzeados, nascidos depois do colapso da União Soviética, regurgitando frases cheias de clichês que nenhum moscovita com menos de 50 anos haveria de dizer. Este vocabulário na boca de gente de tenra idade foi adquirido na última década, mas é removido de contexto histórico. Então, o que há de comum nesta cultura que os criou e na educação que tiveram?

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