Relançado romance de Hilda Furacão

Depois de 11 anos e várias versões, o autor do romance Hilda Furacão publica o livro em que surgiu a personagem: Hilda, que em 1998 tornou-se nacionalmente conhecida com a exibição da minissérie da Rede Globo, era uma "coadjuvante" em O Cheiro de Deus, que agora chega à livrarias publicado pela Objetiva.Cheiros, na verdade, são uma obsessão na obra de Drummond. "Eu não tinha percebido, até que uma pesquisadora de Juiz de Fora, Miriam Delgado Senra Duque, me enviou uma relação de cheiros em todos os meus livros; todos eles têm cheiro", conta Drummond. Em Sangue de Coca-Cola, por exemplo, o leitor abre o livro e logo é informado que se trata de um "relato de alucinações num dia 1.º de abril que cheirava a carnaval".Outra obsessão é seu nome de família. Se Hilda Furacão era narrada por um tal de Roberto Drummond, dessa vez toda a trama gira em torno dos Drummond, uma estranha família do interior de Minas, em que os casamentos incestuosos são freqüentes e todos os homens têm nome de uísque, representando a fixação dos seus parentes com a linhagem escocesa."Aprendi com Thomas Mann e Ivan Turguenevi que, se você tem uma família, não precisa inventar outra", brinca Drummond. Segundo ele, seu Drummond é "mais puro" que o do poeta Carlos Drummond de Andrade, um parente distante, porque há mais casos de casamentos co-sanguíneos em sua família. "Coloquei todo o folclore, as lendas e as idéias fixas da família no livro", diz Drummond.A protagonista, desta vez, é Inácia Micaéla, uma mulher de 65 anos, cega e que, cada vez mais, apura seu olfato, tentando descobrir qual é o cheiro de Deus. Em busca desse cheiro, chega a acreditar que talvez ele se assemelhe às coisas mais estranhas - como o cheiro da classe operária.Micaéla tem como inimigo o Coronel Bim Bim, que vai a Belo Horizonte com o intuito de cortar a cabeça de Micaéla e pendurá-la no casarão de 28 janelas. Na verdade, eles, que defendem as cores da UDN e do PSD (partidos que dominaram a cena política brasileira de 1945 a 1964), vivem uma paixão inconfessável.Drummond tem clara preferência pelo PSD. "Era assim mesmo: o dr. Hilton Rocha exisitiu, um coronel Bim Bim existiu, Barbacena vivia uma disputa que transpus para a fictícia Cruz dos Homens", relata Drummond. "A sabedoria do PSD era maravilhosa; a política de verdade era essa antiga, a de hoje não corresponde à realidade brasileira."Biblioteca Drummond- A Objetiva planeja relançar todos os livros de Roberto Drummond, numa coleção chamada Biblioteca Drummond. Vai, no entanto, enfrentar dificuldades. A Geração Editorial, que publicou as últimas edições de Sangue de Coca-Cola e Inês É Morta está reimprimindo os livros e diz que não pretende ceder os direitos. A Geração Editorial fazia parte do grupo de editoras que disputou a publicação de O Cheiro de Deus e que perderam a corrida contra a Objetiva.Questionado se Biblioteca Drummond não levaria o leitor a certa confusão com o poeta, Roberto diz acreditar que, depois do sucesso da minissérie televisiva Hilda Furacão, não há espaço para isso. "Quando ganhei o Prêmio do Estado do Paraná, em 1971, com A Morte de D.J. em Paris, tinha gente que achava que eu não tinha o direito de usar o sobrenome; agora, isso passou."O Cheiro de Deus. Romance de Roberto Drummond. Editora Objetiva (0--21-2556-7824). 408 páginas,R$ 32,90

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.