Relançado primeiro livro do fotógrafo Pierre Verger

Os números são superlativos. Retratos da Bahia, primeiro livro que o fotógrafo e etnógrafo francês Pierre ?Fatumbi? Verger, lançou no Brasil, contém 251 imagens em preto-e-branco das mais de 800 que ele realizou de 1946 a 1952, retratando os costumes, as crenças, os becos, os descampados, os altos e baixos, os sorrisos e até mesmo os aromas daquela que ele chamava de Boa Terra. Suas fotos revelam o tempo de uma Bahia idílica que há muito dizem ter se perdido. Apaixonado pela terra de todos os santos, Verger não realizou só um mero registro iconográfico. Traduziu a Bahia e o Brasil para o mundo. Declaradamente seu trabalho favorito, esta obra-prima da fotografia está completando 25 anos e ganha uma reedição à altura de seu valor. Esta não é a primeira reedição de Retratos da Bahia, que fique claro. Um primeiro novo tratamento foi realizado em 2002 por ocasião do centenário de Verger. Mas esta é a primeira vez que tamanho apuro é dado ao seus retratos tão carinhosos. Além de uma nova capa (desta vez, a foto que abre é a vertiginosa Porto dos Saveiros, em que um pescador escala o mastro de um dos barcos), novo papel e as novíssimas técnicas de impressão conseguem o feito de melhorar ainda mais o trabalho de Verger. ?As fotos são em preto-e-branco, mas finalmente estamos imprimindo o livro com quatro cores de base, o que dá maior riqueza às nuances. Os cinzas, os semitons se destacam, tudo ganha muito mais profundidade. É notável a diferença?, explica Arlete Soares, grande admiradora, amiga e editora de Verger, morto em 1996, aos 94 anos. Não por acaso, também é o primeiro livro a ganhar apoio da Funcultura, Fundo de Cultura da Bahia, programa do governo estadual que estimula a produção artístico-cultural baiana por meio de parcerias com empresas e incentivos fiscais. Superlativa também foi a labuta para tornar Retratos da Bahia (Editora Corrupio, 288 págs., R$ 220) uma realidade. ?Eu havia prometido o livro a Verger, que havia passado por um período de grande frustração após ter sido preso na Nigéria, onde foi professor visitante na Universidade de Ifé. A prisão colocou em dúvida sua honestidade e o deixou perplexo e triste, sem motivação para o trabalho?, relata Arlete. ?Foi então que prometemos publicar sua obra, até aquele momento desconhecida no Brasil. Foi muito mais difícil do que pensava. Eu tinha cartas de recomendação de Jorge Amado e Carybé, mas mesmo assim ouvi de grandes editoras que lançar um livro sobre negros não dava retorno. O Brasil era muito mais racista e preconceituoso?, continua. ?Jamais contei isso a Verger. Ele já estava entusiasmado demais. Então, eu e mais três amigos (Arnaldo Grebler, Enéas Guerra e Cida Nóbrega) decidimos abrir uma editora só para tornar Retratos da Bahia uma realidade.? A ousadia valeu a pena. Retratos ganhou críticas que se derramavam de admiração por todo o País. A obra virou referência de excelência em apuro técnico e artístico e ainda hoje inspira mestres da fotografia pelo mundo. ?Até Drummond escreveu sobre o livro?, orgulha-se Arlete. Mas investimento é investimento. ?As contas tinham data para vencer. Não tínhamos experiência nenhuma de mercado e naquele tempo Salvador era muito mais longe do Rio e São Paulo. Tive de vender um terreno na praia para pagar o livro. Conseguimos nos manter e hoje ainda lançamos grandes artistas?, orgulha-se Arlete, que conheceu o fotógrafo por intermédio de um amigo ilustre. ?Foi Jorge Amado quem nos apresentou. Eu fazia doutorado na França e descobri o livro Fluxo e Refluxo do Tráfico de Escravos entre o Golfo do Benin e a Baía de Todos os Santos dos Séculos XVII a XIX. Precisava ler, mas só existia em francês. Eu li e quis traduzi-lo para o português. Falei disso para o Jorge, que nos apresentou. Verger foi tão gentil que me enviou seu exemplar, cheio de anotações. Pouco depois, ele me convidou para ir à Nigéria. Acabamos amigos e eu me incumbi de resgatar suas fotos que ele havia deixado na casa de amigos durante a Segunda Guerra. Cheguei a despachar 150 quilos de negativos para o Brasil.? Originalmente, Retratos da Bahia tem prefácio dos amigos Carybé e Jorge Amado, além de um texto em que Verger relata desde a primeira vez que avistou a Baía de Todos os Santos, a importância do carnaval, e seu amor pelo candomblé, religião que adotou e lhe deu o segundo nome de Fatumbi (renascido pelo Ifá, sistema de adivinhação de religiões tradicionais africanas). A nova edição ganhou apresentação de Gilberto Sá, presidente da Fundação Pierre Verger, e de Arlete Soares. Como se nota no texto escrito pelo próprio, para Verger, superlativa mesmo era a Bahia. Para melhor relatar o amor que tinha pela terra que o acolheu, sugeriu a Arlete que dividisse o livro numa seqüência capaz de revelar aos poucos seus caminhos pela Bahia, as visões gerais da Cidade Alta e Baixa, as festas populares, as moças e rapazes, pescadores, cenas de rua, fachadas, os amigos. ?É o retrato de uma Bahia que não existe mais, que foi destruída. Período em que a arquitetura não havia sido tão agredida, que festas populares não haviam ganhado essa dimensão comercial, assustadora?, reflete Arlete. Preservar esse tempo já é grande feito. Mais que o etnógrafo, pesquisador, fotógrafo e artista, Verger é sempre apontado como um grande humanista, que tinha a coragem de fugir do óbvio. Em uma época em que a cultura se pasteuriza para alimentar massas sedentas de consumo rápido, Verger se reafirma cada vez mais como mestre. ?O que me deixa mais feliz é que as pessoas se interessam. Outro dia, uma vendedora de acarajé queria comprar o livro e sugeriu pagar em dez prestações. Acabei dando o livro de presente.? Verger tinha essa capacidade de dialogar com os chamados mais humildes. ?Quando desembarcou na Bahia, já tinha 44 anos e havia percorrido o mundo. Era um andarilho com olhar estrangeiro, experiente o bastante para não observar uma nova terra apenas como um voyeur, mas perceber as sutilezas de cada povo. Ele teve capacidade de nos devolver uma Bahia que nós mesmo não enxergávamos. A Bahia de Verger ainda existe, mas hoje ela não está mais próxima do mar. Há que se recuar para as regiões periféricas para encontrar os tipos que ele tanto amava. Mesmo em seu tempo, ele me levava para passear sempre longe da orla, nos bairros recuados, longe da classe média, em busca da Bahia que encantava.?

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