Kim White/AFP-3/11/2010
Kim White/AFP-3/11/2010

Relações pessoais na era virtual

Dois novos livros mostram o surgimento e discutem o papel das principais redes sociais, [br]que atualmente mobilizam no ciberespaço uma população de usuários maior que a do Brasil

Raquel Cozer, O Estado de S.Paulo

06 de novembro de 2010 | 00h00

Circulou pela internet esta semana um levantamento feito entre 10 mil americanos sobre as épocas do ano mais propícias para o término de relacionamentos - a saber, antes das folgas de primavera e nas semanas anteriores ao Natal. Os 10 mil pesquisados nunca souberam que faziam parte de um estudo, embora tenham eles mesmo disponibilizado as informações. Os dados foram coletados por um designer inglês por meio do Facebook, a rede social onde 500 milhões de pessoas compartilham, nem sempre com comedimento, detalhes pessoais e profissionais de suas vidas.

A questão da violação de privacidade persegue o criador do Facebook, o hoje bilionário Mark Zuckerberg, desde que teve a ideia de reproduzir em rede as vivências sociais que testemunhava em Harvard. Expert em programação, aos 19 anos Zuckerberg invadiu o servidor universitário e criou uma base de dados que permitia aos colegas ver fotos de todas as alunas e dar notas, brincadeira que por pouco não o levou a ser expulso. Meses depois, quando lançou dentro do câmpus o Facebook, não usou dados de ninguém sem autorização - só se cadastrava quem quisesse -, mas, à medida que a rede cresceu, o uso indevido de informações voltou a assombrá-lo. Neste ano, descobriu-se que aplicativos desenvolvidos por terceiros para o site, como games on-line, reuniam e enviavam a anunciantes dados sobre os usuários.

A parte inicial dessa trajetória é contada em Bilionários Por Acaso, biografia romanceada que inspirou o longa A Rede Social, de David Fincher, exibido anteontem no encerramento da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e previsto para estrear em circuito nacional em dezembro. O autor do livro, Ben Mezrich, entrevistou pessoas envolvidas na história - entre elas, o brasileiro Eduardo Saverin, veterano de Zuckerberg na universidade e o primeiro financiador do site - para tentar desvendar o gênio por trás da maior rede social do mundo. Formado pela mesma instituição anos antes da geração de Zuckerberg, Mezrich se deu conta do importante papel desempenhado pelo ambiente no surgimento do site. "A rígida hierarquia social de Harvard tem grande participação no fato do Facebook ter sido criado e se tornado bem-sucedido. Mark estava de fora olhando para dentro, seu rosto contra o vidro; era um ambiente social exclusivo do qual ele mesmo não podia participar", diz o autor ao Sabático. "Quando o Facebook surgiu, ele também era exclusivo. Era preciso ter e-mail de Harvard para estar nele. Isso foi parte do motivo pelo qual decolou." Para Mezrich, o que Zuckerberg fez foi criar um cenário no qual pessoas estranhas como ele poderiam dar certo. "Ele pegou o que viu em Harvard e tornou digital antes de levar isso para o resto do mundo."

Gerações. Quando o Facebook entrou no ar, em fevereiro de 2004, outras redes sociais, como o Friendster e o MySpace, já eram conhecidas em várias partes do globo. O Orkut havia sido anunciado pelo Google um mês antes e, embora tenha feito enorme sucesso em países como Brasil e Índia, nunca alcançou a dimensão do site de Zuckerberg.

O Facebook e o Twitter, as duas mais influentes redes hoje, integram o que as especialistas Lucia Santaella e Renata Lemos definem, no recém-lançado Redes Sociais Digitais - A Cognição Cognitiva do Twitter, como a terceira geração das redes sociais virtuais. Para demonstrar isso, voltam à internet dos anos 90, na qual destacavam-se as características de unidirecionalidade e temporalidade. Sobre a primeira, escrevem: "Saímos de um ponto em busca de algum outro, na maioria das vezes nos distraindo pelo caminho. Podemos até mesmo utilizar diversas janelas paralelas, navegar várias pranchas ao mesmo tempo, mas o percurso é sempre o mesmo: um movimento de exploração do ciberespaço em busca de algo que (...) nos traga respostas, notícias ou entretenimento." Era um momento em que o usuário ainda não criava conteúdo, apenas consumia. A respeito da temporalidade, o estudo salienta que, nos anos 90, tempos de conexão discada e difícil acesso à internet, a navegação pressupunha um início e um fim. "O período foi caracterizado pela organização da informação em arquivos e repositórios estabelecidos de acordo com datas e horários, a serem acessados a partir de locais e horários específicos."

Dentro desse contexto, os exemplos "ancestrais" de redes sociais na web são os serviços de mensagens instantâneas MSN e ICQ, que permitiam diálogo em tempo real na primeira metade dos anos 90. O salto em direção às redes 2.0 foi dado no início desta década por sites como o LinkedIn e MySpace, nos quais os usuários compartilhavam interesses específicos - profissionais, no primeiro caso; musicais, no segundo. Essas redes já reuniam no mesmo ambiente várias possibilidades de comunicação, como comentários, fóruns e chats. O Facebook e o Twitter desenvolveram-se num cenário de integração com outras redes e mobilidade. O uso de aplicativos, como jogos on-line, e o acesso cada vez mais fácil por smartphones (celulares de múltiplas funcionalidades) acabaram de vez com a temporalidade dos anos 90. Não é mais preciso desconectar em nenhum horário do dia - nesta semana, o Facebook divulgou que no último ano triplicou o número de pessoas que acessam o site via celular; elas chegam hoje a 200 milhões, mais de um terço do total de usuários da rede no mundo e mais que toda a população do Brasil, de 185,7 milhões segundo o Censo 2010.

Privacidade. A certa altura de Bilionários Por Acaso, Mezrich descreve uma das ideias que tornaram o Facebook mais evoluído que qualquer outro site de relacionamentos. Até então, as redes tinham na página inicial o perfil do próprio usuário, com suas atualizações e recados de amigos direcionados a ele. O criador do Facebook percebeu que era mais interessante uma página inicial que mostrasse as atualizações de todas as pessoas com as quais cada usuário fosse conectado. Podia parecer detalhe, mas não era - a proposta levou às últimas consequências a ideia de uma rede na qual os usuários alimentam uns aos outros de informações.

O Twitter, como destaca Santaella, também surgiu com caráter inovador, em 2006. A redução do espaço de tela com a disseminação dos smartphones permitiu o surgimento do microblogging, com informações sempre em 140 caracteres ou menos. Enquanto no Facebook o foco da interação está no contato pessoal, no Twitter ele está na qualidade e no tipo de conteúdo veiculado. "No Facebook, em geral, as pessoas já se conhecem antes de se tornarem amigos virtuais. O diferencial do Twitter é não exigir que os dois lados estejam conectados entre si. Um usuário pode "seguir" outro para saber o que ele tem a dizer, mas não ser "seguido" de volta", diz Santaella. Isso cria um novo status social na rede. Quanto mais seguidores tiver um usuário, mais influente ele fica.

Não há dúvida de que as redes sociais na internet estão redefinindo os critérios de relacionamento para o século 21. A maior discussão diz respeito à privacidade. "Pessoas mais novas não se importam tanto com a privacidade quanto aquelas de gerações anteriores", acredita Ben Mezrich. "Todos querem ser, de certa forma, famosos, ter suas informações expostas para que o mundo veja." O discurso ecoa uma das opiniões mais polêmicas de Zuckerberg, que, confrontado com a questão da violação de privacidade, já disse que o conceito está ultrapassado e que "o padrão agora é o social".

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