Relações incômodas entre arte, vida e ideologia

A maior herança de Doris Lessing é uma atitude: seus livros sufocam, constrangem, não negociam

Vinicius Jatobá, Especial para o Estado

17 de novembro de 2013 | 19h16

Prolífica, polêmica, desprendida, Doris Lessing foi uma titã literária. Em seis décadas de ininterrupta produção, seus livros cruzaram gêneros - romances, contos, novelas, ensaios e dois admiráveis tomos de autobiografia -, mas também cruzaram e desbravaram geografias - desde a Ásia de sua infância até a África de sua juventude, passando pela Londres de sua maturidade, e alcançando até mesmo os confins imaginários do espaço sideral em seu ciclo de ficção científica, Canopus. A marca de sua prosa sempre foi a rudeza mais descarada. Doris Lessing revolveu hipocrisias e falsas verdades, desafiou o establishment político e de gênero, e denunciou as agruras do Colonialismo e do racismo. A maior herança de Lessing é uma atitude: seus livros sufocam, constrangem, não negociam. Sua literatura é um martelo.

E isso porque sua grande cruzada sempre foi ideológica. Por trás de uma gramática que engloba conflitos entre indivíduos e sociedade, entre assumir um papel e uma responsabilidade determinada, seja no coração de uma família, como mãe e esposa, ou perante um partido e sindicato, há uma escrita feita de uma pátina de cores muito contrastantes - sem zonas de cinza. O que busca é retratar a verdade por trás das grandes ideias, e palavras. Toda rudeza de sua literatura é provocada por um compromisso inalienável com a verdade.

É assim que o leitor fica chocado com as cores fortes e francas de seu ciclo de cinco romances Filhos da Violência, onde a protagonista Martha Quest passa por inúmeras transformações e rompimentos: com seu casamento, sua vida pregressa nas colônias inglesas na África, o movimento proletário inglês. São temas que habitam os dois volumes da extraordinária autobiografia e de onde o leitor arranca um retrato final de Lessing como uma escritora e intelectual marcada pelos mesmos equívocos e excessos de seu tempo - nem heroína ou vítima, e mais como filha de todas essas contradições.

Doris Lessing será lembrada, no entanto, como a autora do clássico O Carnê Dourado. Misturando textos de diversos cadernos, todos escritos por Anna Wulf, uma escritora em bloqueio criativo, a narrativa é dividida em largos blocos. Há o romance dentro do romance, Mulheres Livres, de tom panfletário. E há também, em um dos cadernos, um outro romance menor, em registro mais suave. Esse relato precede um caderno preto, em que Anna retrata sua infância e juventude na África. Um caderno azul, em forma de diário, descreve o dia a dia de Anna em Londres, enquanto tenta escapar de seus bloqueio criativo e lida com o movimento proletário. Nada disso funcionaria se não fosse o último caderno, dourado, que desconstrói todos os textos anteriores, todos seus registros distintos, traçando uma impressionante reflexão acerca da relação entre vida, arte e ideologia.

VINICIUS JATOBÁ É ESCRITOR E CRÍTICO LITERÁRIO

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