Relações de afeto e injustiça social

Doméstica, de Gabriel Mascaro, destaque da Semana dos Realizadores, discute a própria ética do documentário

LUIZ CARLOS MERTEN, O Estado de S.Paulo

08 Dezembro 2012 | 02h09

Gabriel Mascaro já virou uma referência entre os autores pernambucanos da nova geração. Você pode rever no fim de semana (amanhã) seu longa Doméstica, que abriu a Semana dos Realizadores em São Paulo. O evento também programou outros dois trabalhos de Mascaro, Avenida Brasília Formosa e Um Lugar ao Sol, o que permite ao cinéfilo paulistano fazer uma espécie de minirretrospectiva do cineasta.

Você já conhece a geração de Marcelo Gomes e Cláudio Assis. Agora, vai descobrir os novos pernambucanos. Janeiro vai se iniciar com a estreia de O Som ao Redor, de Kléber Mendonça Filho, que venceu o Festival do Rio. Se entrasse um pouco antes, O Som ao Redor poderia ser o melhor filme brasileiro sdo ano que se encerra - será o primeiro grande de 2013, mas quem garante que permanecerá no posto até o fim do ano que ainda nem começou?

Um Lugar ao Sol é um documentário sobre a especulação imobiliária no litoral do Recife. Ao longo de todas a Praia da Boa Viagem, constroem-se espigões. Os mais ricos disputam seu lugar ao sol. O diretor, valendo-se de um artifício, consegue entrar nessas casas e dialogar com os donos. Propõe uma visão de dentro da elite recifense.

Doméstica não deixa de oferecer um contraponto a Um Lugar ao Sol. Desta vez, Mascaro recorre a sete adolescentes, que assumem a missão de registrar por uma semana a sua empregada doméstica. Pelos termos do contrato, eles entregam o material bruto para o diretor realizar um filme com as imagens que não captou diretamente. Intimidade, relações de poder, o cotidiano - o filme lança um olhar contemporâneo sobre o trabalho doméstico no ambiente familiar, expõe relações de afeto e trabalho. A elite é agora vista por um outro olhar, mas são os olhos dos garotos e garotas da elite pernambucana que flagram a classe mais humilde.

Mascaro não deixa de retomar procedimentos já utilizados por Marcelo Pedroso em outro documentário, Pacific, que integrou a seleção da Mostra Aurora, no Festival de Tiradentes do ano passado. Pacific foi montado a partir de registros amadores e pessoais produzidos por turistas durante um cruzeiro entre o Recife e Fernando de Noronha. A elaboração do material originou uma interessante troca de correspondência entre o diretor (também pernambucano) e o crítico e pesquisador Jean-Claude Bernardet. Na pauta, questionamentos sobre ética documental, padrões estéticos, espetáculo, encenação e a transposição do privado para o público.

Embora aborde temas como violência contra a mulher, exploração infantil, cárcere privado e trabalho escravo - e tudo isso é crime -, Doméstica não foi feito com o objeto de se constituir num filme denúncia. Em São Paulo, onde veio apresentar o filme na abertura da Semana, o diretor disse que o filme vai além de questões pontuais, no sentido de proporcionar uma reflexão sobre a maneira como a sociedade brasileira encara com naturalidade a situação de cozinheiras, faxineiras, copeiras e lavadeiras.

A maioria exerce todas essas funções ao mesmo tempo, em troca de baixos salários. E ainda precisa ser de confiança, porque fica não apenas tomando conta da casa, como muitas vezes soma a tudo isso a função suplementar de babá, dando uma olhada nas crianças.

O olhar de Mascaro sobre o olhar dos adolescentes documentaristas retoma uma discussão que vem lá de Gilberto Freire, Casa-Grande & Senzala. Existe afeto nessas relações, mas elas também são permeadas de injustiça. Nenhum filme fez tanto como Doméstica para retratar o que já está enraizado no inconsciente dos brasileiros.

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