Relação rodriguiana

Após esperar 53 anos para encenar um texto de Nelson Rodrigues, Renato Borghi estreia sua terceira obra do dramaturgo, 'O Casamento'

MARIA EUGÊNIA DE MENEZES, O Estado de S.Paulo

14 de abril de 2013 | 02h14

Era um encontro marcado. Só que demorou décadas para acontecer. Ator dos mais profícuos do teatro brasileiro, Renato Borghi passou, durante mais de 50 anos de carreira, por quase todos os teatros, por boa parte dos papéis de toda a dramaturgia. Mas havia uma lacuna nessa lista imensa: Nelson Rodrigues.

Foi só em 2011 que o intérprete viveu seu primeiro personagem rodriguiano - o Aprígio de O Beijo no Asfalto. Em 2012, surgiu em Os Sete Gatinhos. E, agora, aparece em O Casamento, adaptação do romance homônimo de Nelson. Na pele do Dr. Sabino Uchôa Maranhão, Borghi repete o trabalho de dar contornos a mais um dos patriarcas sórdidos criados pelo escritor.

Todos eles são homens falsamente moralistas. Todos igualmente hipócritas, à frente de famílias degradadas. Mas o atual protagonista guarda suas peculiaridades. E dá a Borghi a possibilidade de se aproximar de Nelson de outra maneira: "É uma experiência nova. Não é exatamente aquele Nelson que eu conheço das peças. No romance, ele se expande, coloca o seu pensamento. Trata algumas coisas de maneira ainda mais profunda", define o ator.

Além dos diálogos, a adaptação da diretora Johana Albuquerque se esforça para trazer para a boca dos personagens aquilo que nos textos dramáticos costuma ficar apenas nas rubricas. "Esse personagem, o Dr. Sabino, é muito especial. Acredito que ele, de certa forma, seja o próprio Nelson, uma espécie de alter ego dele", comenta o ator. "Assim como Nelson, esse personagem vive uma imensa contradição: quer ser austero, respeitável, do outro lado alimenta desejos pela filha, tem amantes." Um ser cindido, tal qual o autor que se definia como um "anjo pornográfico", um "menino que via o amor pelo buraco da fechadura".

Caso único. O Casamento é o único romance assinado por Nelson Rodrigues. Verdade que ele tenha usado a mesma forma literária em outros casos. Nessas situações, porém, costumava valer-se de pseudônimos, como Suzana Flag. Também publicava essas obras em formato de folhetim, o que habitualmente lhe rendia tramas imensas e cheias de reviravoltas.

Aqui, o caminho trilhado por Nelson é mais direto. Ainda que enverede pelas searas de seu imaginário que já conhecemos: um amontoado de taras, loucuras e incestos. "Nelson estava colocando ali a vida como ela é, de fato. E é importante que o teatro seja esse lugar. O avanço na política também deve corresponder a um avanço nos costumes. Eu dedicaria essa peça ao Marco Feliciano. Gostaria que ele viesse ver. A discussão sobre essas questões ainda está em um estágio primário, medieval, obscurantista. Esse texto será um choque", diz Borghi, com larga experiência em escandalizar plateias.

No Teatro Oficina, acompanhado por José Celso Martinez Corrêa, esteve em títulos como Os Pequenos Burgueses, "que provocava uma catarse absoluta no público", e O Rei da Vela, "uma revolução não só pelo conteúdo, mas pela linguagem proposta".

Ainda que tenha demorado mais de meio século para encenar Nelson Rodrigues, pode-se especular que Renato Borghi estava havia muito preparado para isso. "Não conheço o Nelson apenas por ler durante anos os seus textos, por estudar o que ele fazia. Mas porque sou um tijucano, conheço aquilo ali, conheço aquelas pessoas. Aqueles seres que faziam aquela cara de 'somos todos impolutos'. Mas tem uma loucura velada ali por baixo. Até a linguagem é parecida. Tudo me soa muito familiar."

Renato Borghi ainda não tem planos para um novo Nelson. "Mas como não consigo ficar longe do teatro, já tenho o projeto de uma nova peça", diz ele. Azul Resplendor terá Eva Wilma, Pedro Paulo Rangel e Dalton Vigh no elenco. E é um dos textos que Borghi descobriu durante uma longa viagem que fez pela América Latina.

Depois de percorrer países por cerca de um ano e meio, ele e o ator Élcio Nogueira Seixas garimparam cerca de 1.200 criações. O plano era publicar 10% desse conteúdo em formato bilíngue. "Mas tudo continua parado na Funarte", ressalva.

Outro objetivo do périplo latino-americano era divulgar o teatro brasileiro. Especialmente, o de Nelson Rodrigues, traduzindo toda a sua obra para o espanhol. Mais um sonho inconcluso. "Em cada país, os atores ficavam fascinados pelo Nelson", lembra. "Mas não havia nenhuma obra dele disponível lá fora."

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