Relação conturbada

Almanaque assinado pelo crítico Gary Mulholland analisa maneira como o rock foi retratado nas telas

LUIZ CARLOS MERTEN , O Estado de S.Paulo

20 de maio de 2012 | 03h10

Na apresentação de um dos títulos que compõem seu Almanaque dos Filmes de Rock, Garry Mulholland ironiza que François Truffaut tenha rotulado Sabes o Que Quero, de Frank Tashlin, como obra-prima. Para ele, trata-se de "um filme cansativo e entediante, mas continua sendo um filme de rock decisivo porque contém desempenhos muito bem filmados de quatro dos principais pioneiros do rock, que casualmente subverteram o estilo dominante da década de 1950 e, portanto, ajudaram a construir o mundo para melhor".

Como atitude, o rock ajudou a melhorar o mundo? "Você tem dúvidas quanto a isso?", pergunta Mulholland. Segundo ele, o rock forçou uma atitude e ela mudou o mundo, sim. Jornalista, Mulholland veio da crítica musical, não cinematográfica e reconhece que tem um olhar diferente. O rock interessa-lhe, primeiramente, como revolução musical e comportamental. Desde de Elvis Presley e Cliff Richards, o mundo nunca mais foi o mesmo.

Mais de 50 anos de cinema e rock. Não tem sido, por assim dizer, uma convivência pacífica. "É mais um relacionamento de amor e ódio", ele explica. "O videoclipe contribuiu para o modus operandi dos cineastas, da mesma forma que o pop injetou seus instintos grosseiros, vulgares e de mau gosto nas práticas normalmente mais sutis que envolvem a produção de um longa." Para tentar entender o processo de mão dupla ele criou o almanaque, selecionando os melhores filmes de rock por décadas e os 20 melhores de todos os tempos.

O livro, que terá lançamento na quarta, tenta iluminar essa relação. Mulholland não se lembra do primeiro filme de rock a que assistiu, provavelmente em preto ne branco, na TV. Nos cinemas, sua lembrança mais antiga é a de Jesus Cristo Superstar, ópera rock filmada por Norman Jewison, que ele não coloca entre seus 20 mais. O topo da lista é ocupado por Privilégio, de Peter Watkins.

Os filmes de rock são lembrados por sequências de som e imagem que se destacam de produções na maioria das vezes de qualidade inferior. Mulholland não tem grandes ilusões. O único motivo para alguém querer fazer um filme pop é a exploração comercial. Não existem os 100 maiores filmes de rock porque ele acha que seria difícil, senão impossível listar este número de obras de qualidade, ao contrário dos discos. Mas mesmo filmes ruins oferecem registros de artistas extraordinários que ajudaram a criar um mundo mais livre de regras.

"O rock sedimentou a contestação", ele avalia. Além de Privilégio, ele lista, no topo dos seus 20 mais, Expresso Bongo, Sem Destino, Performance, Stardust, Slade in Flame, Quadrophonia, O Lixo e a Fúria. "O livro é uma obra de referência. Não quero impor meus gostos, mas permitir que o leitor encontre informações necessárias para contextualizar e avalizar obras de artistas importantes." A edição brasileira tem apresentação de Kid Vinil e prefácio de Rubens Ewaldo Filho. Kid evoca o primeiro videoclipe do rock brasuca em Absolutamente Certo, de Anselmo Duarte, de 1957. Ele lista obras e artistas, recupera bastidores - é sua praia - e bate com Mulholland na constatação de que o rock é, acima de tudo, uma questão de atitude. Ewald Filho lembra Sementes da Violência e conta como o filme foi proibido antes que pudesse assisti-lo, na época, justamente porque a imagem de baderna foi associada ao primeiro rock - e transportada para o cinema. Filme de rock virou filme de gangue, de droga. Como Ewald Filho diz, cinema e rock são as duas formas mais revolucionárias de arte e cultura pop do século passado. Revolucionaram a maneira como enxergamos o mundo.

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