Rejeitados da Praça Tahir

O povo não perdoa os cantores que não queriam a rebelião

O Estado de S.Paulo

31 de março de 2012 | 03h08

Da mesma forma que catapultou ao estrelato uma série de figuras até então desconhecidas, a revolução egípcia fechou a porta para artistas consagrados que escolheram o lado errado do conflito. A juventude indignada abraçou somente aqueles que fizeram parte do movimento. Crooners tradicionais, como Tamer Hosny (foto) - grande celebridade durante o regime Mubarak - pagaram caro por não ter apoiado os protestos de imediato. Conhecido por suas canções românticas e papéis no cinema, Hosny condenou publicamente a Revolução. Depois, mudou de ideia e se rendeu à Praça Tahir para se juntar à massa de descontentes. Mas era tarde demais. Foi recebido com hostilidade pelos manifestantes, que passaram a associá-lo com o antigo regime.

Antes conhecido como 'príncipe da canção jovem', Hosny se viu deslocado diante de uma nova juventude, com outros anseios. Desde a queda de Mubarak, chegou a gravar duas canções pró-Revolução para se desculpar. Sua carreira, contudo, parece definitivamente manchada.

Como Hosny, muitos outros artistas identificados com Mubarak tentaram mudar de lado depois dos protestos. Alguns ainda estão marcados numa 'lista da vergonha', com o nome de todos aqueles que foram às rádios e canais de TV repreender os manifestantes. Megacelebridade desde os anos 80, o cantor Mohammad Fouad chorou ao vivo nos estúdios de TV, implorando para que as pessoas voltassem para suas casas. Hoje, o artista consagrado por refrões simples e populares já não sabe para quem cantar. Em um país sedento por hinos engajados, Fouad se sente um peixe fora d'água. "É como se eu nunca tivesse cantado", lamentou em uma entrevista à imprensa americana.

Uma nova onda de protestos deve se formar para contestar um regime cada vez mais consolidado, e a música de protesto deverá cumprir novamente um papel importante. Mas os tempos ainda são incertos - a Irmandade Muçulmana acaba de dominar as eleições parlamentares e ninguém sabe o que será do Egito com os islâmicos no poder. Se durante o primeiro momento da revolução o povo da Praça Tahir pareceu conectado, desde a queda de Mubarak o movimento fragmentou-se, com discórdias entre os próprios artistas. / B.T.

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