Reis vestidos

Hillary Clinton se apoia desconsolada na mesa do bar, empurra seu copo esvaziado de vodca e pede à bartender: “Continue servindo”.

Lúcia Guimarães, O Estado de S. Paulo

05 Outubro 2015 | 05h00

Numa reunião no Planalto, Lula se deslumbra com a destreza de sua chefe da Casa Civil numa apresentação PowerPoint. “Marina e Tarso não sabem usar PowerPoint,” diz o presidente, piscando, “e nem assinaram embaixo de tudo que fizemos na Petrobrás.”

Enquanto isso, num bar do Baixo Gávea carioca, Aécio Neves afoga suas mágoas numa dose dupla de uísque single malt. Está cercado de modelos catarinenses de mais de um metro e oitenta, mas seu ânimo está na altura do tornozelo das moças. “Nenhum senador da República é tão perseguido como eu. Por que insistem em me chamar de playboy?”

Dos três quadros acima, só um foi produzido e o vídeo vai se tornando viral. Adivinhem quem se submeteu aos redatores de um popular programa de comédia que ridicularizaram suas posições políticas sobre temas nacionais e satirizaram sua marquetagem pessoal?

Acertou quem não respondeu Lula, Dilma ou Aécio.

Na estreia da quadragésima primeira temporada do Saturday Night Live, Hillary Clinton, de avental amarrado na cintura, se apresenta como Val para a comediante Kate McKinnon, que, de peruca loura e terninho com top azul corporativo, vive a candidata nos sketches do programa desde o ano passado. Hillary-Kate se queixa da popularidade de Donald Trump. Val-Hillary responde imitando a voz de Trump dizendo uma de suas asneiras. A plateia do programa ao vivo cai numa gargalhada sincera, o Twitter explode em uníssono: ‘Não é que a Hillary sabe imitar o Donald?’.

A campanha presidencial mais atacada por excesso de controle e falta de espontaneidade não contrariou sua fama ao vazar discretamente, alguns dias antes, que a candidata poderia voltar ao programa de humor da NBC. Trata-se de uma campanha cujo vazamento anterior para o New York Times inspirou a manchete: “Hillary vai mostrar mais humor e coração, dizem assessores.” Quem há de culpar um redator de comédia por se deleitar com material tão rico? 

Em 2008, quando ainda não tinha sido derrotada por Barack Obama, Hillary já havia aparecido no SNL, não por masoquismo, claro, mas para chegar à cobiçada audiência jovem do programa. Sarah Palin se submeteu ao mesmo beija-mão, contracenando com Tina Fey, cuja imitação de Palin era tão precisa que ficou difícil distinguir um pronunciamento real de um sketch. 

Naquele ano, a Hillary residente era a excelente comediante Amy Poehler. As duas chegaram a contracenar e, mais tarde, afirma Hillary, se tornaram amigas. Mas o evidente clima de divertida cordialidade entre senadora e comediante então não aplacava a lâmina mordaz dos redatores do SNL. Em maio de 2008, meses antes de o Partido Democrata consagrar Barack Obama candidato, Poehler-enquanto-Hillary fez um monólogo de abertura intitulado Má Perdedora.

O texto era um endosso descarado da candidatura Obama. A conclusão do monólogo era: “Má perdedora, eleitores racistas, nenhum padrão ético, qualidades que o senador Obama simplesmente não vai conseguir igualar”.

Esta semana, não notei falsidade nas respostas de Hillary a uma repórter de entretenimento que perguntava como iam os ensaios para o SNL. Ela disse que adorava as imitações das duas comediantes. Admitiu que suas versões em quadros humorísticos tinham lhe ensinado um pouco mais sobre a impressão que transmite ao público e contou que se divertia com o notório caos da produção do programa.

Se o leitor está murmurando, impossível imaginar Dilma Rousseff voltando várias vezes a um programa em que sua imitadora diz: “Eu faço qualquer coisa para continuar no poder,” vamos ser justos. Ainda que a presidente dos déficits seja igualmente deficitária na gerência do humor, não há, no momento, chance de qualquer ex-presidente ou presidenciável passar por este ritual de autodepreciação e gargalhadas no Brasil.

Figuras públicas da política brasileira fazem gracinhas para se humanizar. Mas assistimos no sábado à noite, com a cumplicidade da candidata democrata em apuros nas pesquisas, a momentos de puro sarcasmo. Kate McKinnon, que é lésbica, alfinetou Hillary sobre o quanto ela demorou a defender o casamento gay. À própria Hillary coube uma fala que expunha sua hipócrita relutância em condenar o dano ambiental de um projeto de oleoduto do Canadá ao Texas.

Acabo de encontrar uma versão completa do programa Roda Viva na TV Cultura com a rara e preciosa entrevista de Millôr Fernandes. O ano era 1989 e Millôr, que batia no presidente deliciosamente batizado por ele de Sir Ney, me fez lembrar que o déficit de humor hoje não se restringe aos corredores do poder. Depois de produzir humor com tanta arte e sob risco de prisão na ditadura, parte da nossa inteligência abdicou de sua artilharia. A falta de independência, o paternalismo, a narcisista recusa em admitir que fazer oposição a um vício não gera virtude, emudeceu o riso e cobriu a nudez do poder.

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