Reis da Espanha inauguram exposição no Rio

A exposição Esplendores de Espanha - De El Greco a Velázquez, que será inaugurada esta terça-feira à noite, no Museu Nacional de Belas Artes (MNBA) do Rio, pelo rei Juan Carlos e pela rainha Sophia, refere-se ao curto período em que o Brasil esteve sob domínio da coroa espanhola e apresenta pela primeira vez ao público carioca uma seleção de obras-primas de um dos períodos mais ricos da produção artística espanhola. São quase 150 pinturas, livros e objetos, emprestados por mais de uma dezena de coleções públicas e privadas da Espanha como forma de contribuir para as comemorações dos 500 anos do descobrimento do Brasil, e a expectativa da direção do MNBA é atingir a cifra recorde 500 mil visitantes. Nomes míticos como os de Velázquez, El Greco, Zurbarán e Ribera são sem dúvida atrativos bastante sedutores. Infelizmente, os paulistanos que quiserem ver esses tesouros terão de ir ao Rio, já que os proprietários das obras não concordaram com a itinerância da mostra. A organização da exposição, idealizada por Miguel Angel Cortez, coube ao Instituto Arte Viva, dirigido por Frances Marinho. Nora de Roberto Marinho e radicada no Brasil há dez anos, a empresária teve de conquistar o apoio de colecionadores, museólogos e patrocinadores no tempo recorde de cinco meses. "Foi uma cruzada, todo mundo me dizia que era impossível fazer uma exposição nesse tempo", conta Frances, que teve de ir 15 vezes a Madri para viabilizar o projeto, mesmo tendo todo o apoio do Ministério das Relações Exteriores da Espanha. A empresária e colecionadora vem ganhando cada vez mais importância no cenário artístico nacional ao trazer ao País exposições de destaque como a da coleção de seu conterrâneo, Eduardo Costantini. A agenda das atividades da Arte Viva para os próximos anos também é bastante tentadora e inclui atrações como a coleção de arte contemporânea do Chase Manhattan, uma mostra de arte cubana do século 20 e uma exposição da coleção de arte egípcia do Louvre. Segundo ela, o fato de pertencer à família Marinho não pode ser considerado como um fato significativo para o bom resultado de sua missão. "Isso facilita se você estiver vendendo um projeto bom; senão te convidam para tomar um cafezinho e ponto", afirma. Frances não diz quantas obras tem em sua coleção, mas afirma que se trata de um acervo pequeno. E acrescenta: "Adoro apoiar artistas jovens, brasileiros e argentinos." Só para conseguir trazer a tela A Recuperação da Bahia, pintado em 1634 por Juan Bautista Maino e que nunca havia saído do Museu do Prado, Frances fez três visitas à Europa. Esse quadro de grandes proporções, que abre a exposição (para colocá-lo no museu foi necessário utilizar uma porta que não era aberta desde 1905 e interromper o tráfego por uma hora na rua México, no centro carioca) registra um dos grandes momentos da luta das forças lusitanas e espanholas que, unidas sob a mesma casa imperial, lutavam contra os invasores flamencos. Outra tela de negociação dificílima foi As Tentações de São Tomás, que pertence à diocese de Orihuela, cujo bispo resistiu muito em emprestá-la. Segundo Carlos Martinez Shaw e Marina Alfonso Mola, professores do Departamento de História da Faculdade de Geografia e História de Sevilla e curadores da exposição, esta é a primeira vez que obras tão emblemáticas sobre o período da União Européia são reunidas no mesmo local. Se a grande maioria das peças reunidas na mostra foi selecionada em função de sua importância mais histórica do que estética, a seleção inclui também um número significativo de obras-primas do período que ficou conhecido como Século de Ouro da Pintura Espanhola. O recorte histórico adotado não abrange todo o período glorioso da arte do país ibérico, que segundo Shaw teria começado em 1550 e terminado em 1680. Murillo, por exemplo, um dos grandes mestres espanhóis, só começou a produzir após a separação entre Espanha e Portugal, com a vitória do duque de Bragança. Mas é possível por meio dessa seleção acompanhar os rumos gerais da produção do período, admirando as influências das escolas italiana e flamenca (simbolizadas nas figuras de Caravaggio e Rubens) e as particularidades do barroco espanhol. A arte propriamente dita é o centro total das atenções apenas no quarto e mais atraente bloco da exposição. Os três primeiros são União das Coroas, Defesa de Ultramar e a Cultura e a segmentação é determinada pela cenografia criada por Daniela Thomas. A exemplo do cenário colorido que criou para o módulo das Imagens do Inconsciente, da Mostra do Redescobrimento - e que parece estar em moda nos últimos tempos -, a cenógrafa lançou mão de cores fortes (mas pelo menos não tão estridentes quanto no prédio da Bienal). Como já diz o título da mostra, seu grand finale traz atrações imperdíveis como El Greco e Velázquez. Cada um deles tem direito a uma sala especial, com oito e cinco quadros. Velázquez está representado ainda com quatro pinturas atribuídas a seu ateliê e uma cópia de época de um retrato de sua autoria. Em período de contra-reforma, não é de espantar que 70% da pintura espanhola do período seja de ordem religiosa. Outros 20% são obras cortesãs - principalmente retratos - e os 10% restantes dividem-se entre naturezas-mortas, cenas mitológicas e paisagens (um dos fortes da pintura flamenga no período e raramente criadas pelos espanhóis). Apesar dessa desproporção, os curadores fizeram um grande esforço para que nenhum dos gêneros ficasse de fora. "Conseguimos até um conjunto de 17 bodegones (como são conhecidas as naturezas-mortas na Espanha), graças aos colecionadores privados; é um tour de force da exposição", diz Shaw, lembrando o sucesso crescente que essas obras vêm fazendo dentro e fora de seu país. Para receber a mostra, que reúne uma quantidade impressionante de obras que nunca ou raramente deixaram as paredes em que repousam há quase quatro séculos, o MNBA passou por uma série de reformas a fim de adaptar-se às exigências impostas pelo Museu do Prado (que forneceu cerca de um terço das obras exibidas), que incluem a instalação de sistemas de segurança e de climatização, orçadas em US$ 600 mil e financiadas pela prefeitura do Rio. O custo total da exposição foi de US$ 2,5 milhões (só em embalagem, foram gastos cerca de US$ 150 mil) e só foi possível tornar viável o evento graças à colaboração de multinacionais espanholas, como a Telefônica, a Repsosl YPF e o Banco Santander. A Varig e a SEG também contribuíram. Frances Marinho também inventou uma forma de financiar o projeto educativo desenvolvido por Guilherme Vergara, por meio do qual 1,5 mil professores da rede pública estão recebendo treinamento como monitores da exposição: empresas e pessoas físicas foram convidadas a "adotar" um quadro da mostra, por valores que variam de US$ 2 mil a 20 mil. Além da mostra, está sendo organizada uma série de eventos em torno de Esplendores de Espanha, como a Mostra Cervantina, uma coleção de raras obras de Cervantes que será realizada pela Biblioteca Nacional; um ciclo de palestras com historiadores, lançamento de livros como a bela obra dedicada ao público infantil A Princesa e o Pintor (que vê a obra de Velázquez pela ótica da infanta Margarida, retratada na célebre As Meninas). Até um festival de gastronomia e a transformação do café do museu em um Bar de Tapas está sendo previsto. Também será publicado um catálogo de fôlego com textos de especialistas espanhóis e análises detalhadas de cada obra. Informações também podem ser obtidas no site oficial do evento, que será inaugurado terça-feira com a exposição (veja link abaixo).

Agencia Estado,

09 Julho 2000 | 20h07

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