Reinvenção e novidade na arte de Kampela

Radicado em Nova York, compositor carioca traz duas obras para Bienal

João Marcos Coelho ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

23 de agosto de 2010 | 00h00

O compositor carioca Arthur Kampela terá duas de suas obras executadas durante a Oitava Bienal Internacional de Música Eletroacústica de São Paulo, que começou na última quarta-feira, dia 18, e se estende até sexta. Hoje, o público poderá ouvir Textorias, para viola e eletrônica, peça de 1991. No dia 27, será apresentada Happy Days, obra recentíssima, de 2010, para violão e eletrônica, e ele fará uma palestra.

Aos 50 anos, e há 20 radicado em Nova York, Kampela atrai só agora as atenções extramuros da tribo eletroacústica. Isso por ter recebido da Filarmônica de Nova York, em 2009, a encomenda de uma peça: Macunaíma estreou em 17 de dezembro passado no Symphony Hall, regida por Magnus Lindberg, na série de música nova da Filarmônica intitulada Contact. Em seguida, foi repetida no Metropolitan. A obra mistura diversificada percussão, técnicas instrumentais expandidas com inesperados e curtos trechos villa-lobianos.

Não deixa de ser perverso este mecanismo de legitimação de um compositor contemporâneo, que só tem voz pública e espaço na mídia quando é ungido com uma encomenda deste porte. "O que mais me irrita é ainda ter que ficar justificando aonde vou", disse Kampela ao Estado.

Infelizmente, esse é o preço a pagar pelo pleno exercício da liberdade criativa. "Escrevo como indivíduo que tem dentro de si todos os indivíduos do mundo. Quando faço algo e digo "caramba, nunca ouvi isso" - quando vivo esta emoção, sei que é uma emoção que os outros gostariam de ter. Mesmo que as pessoas comuns não saibam disso", completa.

Aeroporto. Kampela compôs o primeiro samba atonal da música popular brasileira em 1982, no Rio. Estudou com Koellreutter, que lhe indicou o aeroporto como única saída criativa. Para ele, ainda parece fundamental que um compositor tenha uma vivência nos EUA ou na Europa. "Você precisa sair do seu local de origem para entender quais aspectos de sua linguagem são universais." E compara Francisco Mignone, que jamais saiu do Brasil, com Villa-Lobos. "Villa-Lobos só foi o Villa que conhecemos devido a suas estadas na França."

Kampela considera que sua inovação na cena contemporânea é o que chama de "modulação micrométrica". Ele sobrepõe divisões irregulares dentro do compasso; leva este procedimento ao limite, provocando permanente instabilidade.

Mas, possivelmente, sua característica mais interessante é o que ele aponta como "reinvenção dos instrumentos e dos músicos". É possível assistir a Percussion Studies no YouTube: uma delas, para viola, deve ser executada por um violonista. "É como se um violonista achasse uma viola e a explorasse". O resultado é excelente, porque abre um universo de novas técnicas de se tocar o instrumento. É o que os especialistas chamam de "técnicas expandidas". Um assunto no qual Kampela é mestre.

BIENAL INTERNACIONAL DE MÚSICA ELETROACÚSTICA DE SP

Instituto de Artes da Unesp. Rua Dr. Bento Teobaldo Ferraz, 271, Barra Funda, 3393-8546. 2ª e 6ª., 20h30; Grátis. Até 27/8.

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