Reinvenção de Fellini

Na competição, Paolo Sorrentino exibe sua brilhante versão de A Doce Vida

LUIZ CARLOS MERTEN , ENVIADO ESPECIAL / CANNES, O Estado de S.Paulo

22 de maio de 2013 | 02h07

Mais até do que Matteo Garrone de Reality, Paolo Sorrentino é o autor que faz diferença no cinema italiano atual. Sorrentino tem vindo regularmente a Cannes desde As Consequências do Amor, de 2004. O Amigo da Família, O Divo, Aqui É o Meu Lugar. O último é quase a exceção em sua carreira - além de ser um filme 'estrangeiro', rodado nos EUA, é interpretado por Sean Penn. No restante de sua obra, Sorrentino usa sempre Toni Servillo, que deve ser contado nos dedos de uma só mão como um dos maiores atores contemporâneos.

Sorrentino está de novo na competição com La Grande Bellezza. O filme desconcerta, causa estranhamento, mas uma vez que o espectador viaja em suas imagens as coisas começam a fazer sentido e Bellezza vira uma experiência enriquecedora. Sorrentino, de alguma forma, fez a sua versão de A Doce Vida para os anos 2000. Servillo faz um escritor que se converte em jornalista, como Marcello Mastroianni no clássico de Federico Fellini.

Ele escreveu um único livro - considerado grande. Virou celebridade, frequenta os ricos e poderosos. E faz entrevistas para uma revista de prestígio. O filme abre-se numa festa e as figuras são tão bizarras que parecem saídas de algum painel felliniano sobre a decadência do mundo contemporâneo. Uma festa no início, outra no final, um cardeal, um suicídio, um strip-tease. Sorrentino parece ter-se aplicado em reinventar Fellini.

Dito assim, parece que a reflexão de La Grande Bellezza é de segunda mão. Não é. Há uma angústia genuína, um cinismo devorador - e Servillo é, como sempre, extraordinário. E há esse personagem de intelectual suicida que expressa a malaise, fazendo a ponte possível entre Albert Camus e o tempo perdido de Marcel Proust. Um regalo no filme é a presença de Serena Grandi, estrela dos filmes, no limite da pornografia, de Tinto Brass.

Em seus filmes anteriores, e em Il Divo e This Must Be the Place, principalmente - que não são os melhores -, Sorrentino já mostrou que possui forte imaginação visual. Mas nada se compara em delírio de cenografia e figurino a Behind the Candelabra. Há anos Steven Soderbergh manifesta o desejo de parar com a carreira. Candelabra deve ser o quarto ou quinto que ele apresenta como seu último filme. Quando for de verdade, já terá ido tarde.

Do ponto de vista midiático, a graça de Candelabra está no fato de oferecer a atores reconhecidamente straights a chance de criar/retratar o mundo gay. Michael Douglas virou outro homem depois que se casou com Catherine Zeta-Jones, mas antes dela, priápico confesso, precisou se internar para se tratar do sexo como vício. Ele contou que se inspirou no Liberace que conheceu pessoalmente - porque era vizinho de seu pai, Kirk Douglas, em Hollywood.

Liberace, que se autodenominava Lee, se vestia de peles, cobria-se de strass, frequentava lugares escusos e tinha sempre um valet novo como acompanhante, mas na América dos anos 1950 e 60, o público acreditava em seu romance com uma esquiadora europeia. Michael Douglas, Matt Damon e Bob Lowe soltam a franga e a cena em que Damon toma um susto ao acordar no meio da noite e topar com os olhos meio abertos de Douglas/Lee é impagável. De tanto se esticar para remoçar, Lee não consegue mais fechar os olhos para dormir. Quando morre, de aids, a ficção soderberghiana lhe permite subir ao céu. Candelabra é uma stravaganza, e não apenas visual. Mostra uma América e um mundo que vivem de aparência. O de Paolo Sorrentino também é assim. Mas, enquanto Sorrentino passa uma angústia real, Soderbergh é só cafona.

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