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Laura Greenhalgh
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Reinando, sem pressa

LONDRES - Entre as causas políticas sem futuro, talvez o projeto de uma Grã-Bretanha republicana seja uma das mais promissoras. Em dar em nada. Outro dia o porta-voz da "alternativa democrática à monarquia" jogou a toalha. Reconheceu que não há espaço para esse debate e que o reino está cada vez mais unido em torno da monarca. Bem verdade que a ofensiva do Palácio de Buckingham nos últimos anos tem sido implacável, mesmo sob corte de custos. Comecemos pelo casamento do príncipe William e Kate Middleton, causando todo aquele frisson; depois, um ano inteiro de festividades pelo jubileu da rainha; daí, a gravidez de Kate; agora os 60 anos da coroação de Elizabeth II; dentro de semanas, nasce o bebê real; e, coroando tudo, o Palácio de Kensington vai abrir uma superexposição sobre aquela que seria a avó mais paparazziada do planeta, a eterna Princesa Diana no coração dos ingleses. É ou não é imbatível?

Laura Greenhalgh, O Estado de S.Paulo

08 de junho de 2013 | 02h08

Até a imprensa inglesa tem se rendido em sua mordacidade. Os tabloides andam acuados por pressões políticas, processos criminais cabeludos e multas de arrepiar a calva de Rupert Murdoch. Sem poder ir fundo, tornam-se bobos. Kate vai a uma creche, barriguinha visível na abertura do mantô amarelo (que outra grávida ficaria bem num mantô amarelo?) e a manchete beira a idiotice: "Feliz e pronta para ser mamãe". Uau. A imprensa séria vive o mesmo embevecimento, a seu modo. Analistas respeitados criticam esse royal boom. Reclamam que a nação não pode ficar olhando para as cabeças coroadas, enquanto a incerteza econômica cresce. No fundo, gostam é de falar daquilo que julgam não merecer ser falado. Very british.

Quem paira acima de tudo e todos é Sua Majestade. Com seus modelitos combinando vestido, chapéu e luvas no mesmo tom, fora a indefectível bolsinha que a acompanha desde as primeiras horas do dia, Elizabeth II fez-se uma unanimidade. Quem vai atacar esta mulher que há 60 anos, quando tinha apenas 26, atravessou a nave da Abadia de Westminster equilibrando na cabeça os 5 quilos em ouro e pedrarias da coroa de St. Edward e nas costas uma história de séculos, feita de grandes e baixíssimos momentos? O incrível é que ela dedicou a vida ao papel que lhe foi conferido com a morte do pai, sem nunca alterar um estilo pessoal: contido nos gestos, econômico nas palavras e atento. A rainha é o que é, sem afetação.

Esta semana, ela voltou à abadia para rememorar o dia de sua coroação. Veio de modelito entonado, sem traje de gala - a coroa pesadona foi depositada no altar de Westminster, como um símbolo. Além do colarzinho de pérolas, usou broche com uma magnífica água-marinha, presente do governo brasileiro em 1958, JK na presidência. A abadia a recepcionou com uma exposição de fotos de época, imagens de quando foi coroada e consagrada ali mesmo. Isso aconteceu numa manhã fria e chuvosa de junho de 1953, com milhares de ingleses apinhados para acompanhar o cortejo que lhes atenuaria a memória da guerra. Dormiram nas ruas para ver a filha de George VI, já casada e mãe de duas crianças, Charles e Anne.

O jornalista britânico Harry Boardman escreveu na época que Elizabeth II conquistara de saída o coração dos ingleses, o que não aconteceu com Elizabeth I e Vitória - ambas caíram nas graças do povo com o tempo. Boardman também observou que ela enfrentava aqueles festejos todos "com uma gravidade que não é típica dos 20 anos". Esta semana foi possível rever o único documentário existente da coroação de 1953, obra de um restauro de seis anos da BBC. Boardman estava certo: a rainha sempre foi cool.

Pois ela continua aí, a serviço, aos 87 anos. Não dá ares de cansaço, não passa o bastão para o filho Charles, nem admite estar preparando o neto William para o trono. Vai levando e bem. Talvez queira superar o tempo de reinado da rainha Vitória - 63 anos. Da abertura do ano legislativo no Parlamento à visita ao destacamento do soldado Lee Rigby, morto semanas atrás por radicais islâmicos, cumpre agenda. Nem a internação do marido, o príncipe Philip, de quase 92, nesta quinta-feira, a fez cancelar os compromissos da semana da coroação.

Dias atrás a rainha convocou outro neto, o polêmico, mas simpático Harry, para acompanhá-la na abertura do Chelsea Flower Show, no bicentenário da Royal Horticultural Society. Harry chegou à exposição de flores avisando que iria inaugurar o canteiro de Forget-Me-Not. Com tanto cinegrafista apontando para ele, um massacre, poderia ter chamado as florzinhas azuis de Forget-Me-Please. Seria um lapso compreensível. Tudo faz crer que Harry se tornou o novo alvo da mídia. Mais até que William, o filho de Charles, que casou com Diana, mas amava Camila, que não é amada por ninguém. Pois vovó está de olho nisso.

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