Reinado do desencanto

Reinado do desencanto

A insatisfação que dominava Lima Barreto se impõe em O Triste Fim de Policarpo Quaresma

Ubiratan Brasil, O Estadao de S.Paulo

26 de março de 2010 | 00h00

Quebrar os cânones literários e teatrais foi a primeira atitude de Antunes Filho ao adaptar O Triste Fim de Policarpo Quaresma. "Preferi subir no muro e olhar o vizinho", explica, uma metáfora para justificar o flerte com as artes visuais, notadamente a videoarte, que também lhe inspirou em A Falecida Vapt-Vupt. "O livro do Lima Barreto me desconcertou, pois Policarpo revela-se um homem ingênuo até cair na real, quando se desencanta com a sociedade."

A sensação inspirou também o elenco. Lee Thalor, que interpreta o papel principal, conta não ter chegado a um personagem definido pois, depois de semanas de preparação, o que se verá no palco é o conjunto de resíduos sobrados de diversas experimentações. "A obra continua atual, especialmente quando faz crítica à corrupção, à burguesia, à reprovável atuação dos políticos", conta o ator, que encontrou semelhanças de Policarpo com Quaderna, emblemática figura de A Pedra do Reino, espetáculo de Antunes que o lançou no teatro, em 2006, inspirado na obra de Ariano Suassuna. "Ambos conseguem manter sua humanidade mesmo diante de adversidades. E, especialmente em Policarpo, há um desejo abafado de resistir à revolução, às mudanças."

Thalor concorda com Antunes sobre Policarpo representar um reflexo de Lima Barreto - ainda que o escritor tenha sido mais autobiográfico em Recordações do Escrivão Isaías Caminha (1909). As dificuldades marcaram sua vida. Mulato e filho de família pobre, Barreto perdeu a mãe aos 7 anos e, quando estava com 22, acompanhou o enlouquecimento do pai. Abandonou em seguida o curso de engenharia para iniciar carreira na vida pública. Decidiu então assumir a literatura, apesar de escrever crônicas desde os 15 anos. Enfrentou, no entanto, diversas barreiras, especialmente raciais. Sentindo-se um condenado por culpa da cor, proibido de viver, Barreto era dominado por um sentimento de injustiça, um recalque contra o meio hostil, que o abafava.

"Por isso que Policarpo Quaresma se enquadra na mesma linhagem de personagens como Quaderna, Macunaíma, Simão Bacamarte, Riobaldo, todos com algum tipo de insatisfação", conta Antunes, que uniu elementos diversos ao compor seu texto: desde a Comédia Dell"arte, o circo, o Teatro de Revista e as operetas até as clássicas comédias americanas. "Meu objetivo é atingir uma linguagem popular, dinâmica, sem prejudicar a mensagem do Lima", explica o encenador. "Assisti a muitos filmes dos irmãos Marx, que me ajudaram durante o processo."

Assim, em um palco despido de cenário (habitual em suas peças), Antunes oferece um espetáculo cômico, mas permeado pela trágica condição do personagem em seu contexto histórico e político. Além da montagem, o diretor convidou 20 novos cenógrafos para construir maquetes, cada uma inspirada em uma obra de Barreto. Todas estarão expostas no hall do Sesc Consolação.

Frase

"Se eu ficasse preso à teoria teatral, não conseguiria fazer a adaptação. Preferi subir no muro e olhar o vizinho. Eu me inspirei assim no teatro de revista e nos irmãos Marx."Q

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