Rei da xilogravura faz o cordel resistir

Mestre da xilogravura e tradutor do realismo fantástico nordestino, o pernambucano J. Borges, de 66 anos, prepara-se para lançar no próximo mês um livro artesanal, totalmente confecionado por ele. Em Memórias e Contos de J. Borges, 300 páginas e 187 ilustrações, o artista vai contar fatos da sua vida em versos de cordel. Ele dispensou ajuda de "pessoas cultas" porque prefere a presença de erros gramaticais num autêntico retrato seu e de suas lembranças. Reconhecido dentro e fora do País e apontado pelo escritor Ariano Suassuna como o maior xilogravurista popular brasileiro, ele foi recentemente alvo de reportagem no jornal The New York Times. Já expôs e fez oficinas nos Estados Unidos e vários países da Europa. Foi o único artista brasileiro a ilustrar o calendário 2002 da Organização das Nações Unidas (ONU). Ilustrou o livro Palavras Andantes, do uruguaio Eduardo Galeano, e está com nova viagem marcada para os Estados Unidos, em setembro, a convite de museus de Nova York, Pensilvânia, Colorado e Texas. Pessoa encantadora, ele nunca deixou de ser o J. Borges, menino pobre nascido no sítio Piroca, em Bezerros, no agreste, a 100 quilômetros do Recife. Mantém o jeito puro e os valores de homem do interior e atende a um correspondente estrangeiro com a mesma atenção com que recebe um repórter de uma emissora de rádio local. "Para mim, é tudo igual." Na era da tecnologia, J. Borges é amante e ferrenho defensor da tradição. Imprime seus cordéis em uma máquina tipográfica do fim do século 19, "que não tem mais onde remendar", e as xilogravuras - de tamanho até 34 cm x 56 cm - são impressas manualmente em uma peça rudimentar de madeira, feita por ele. É com esse equipamento que ele está fazendo o seu livro, que começa dizendo: "Nasci no tempo em que telefone era o grito e remédio era folha de mato." Serão mil exemplares e certamente não chegarão às livrarias. J. Borges só freqüentou a escola durante dez meses, quando tinha 12 anos. Desde os 8, ele ajudava o pai na agricultura. O tempo exíguo de escola foi suficiente para lhe dar as noções básicas da escrita, da leitura e da matemática. O resto foi por sua conta. "Com o pouco que aprendi, saí regando a leitura, que tudo é como planta." Com pouco mais de 20 anos, começou a fazer xilogravura sem saber que a técnica tinha esse nome. Nunca teve quem lhe ensinasse o ofício da impressão ou da arte, tampouco teve influência de nenhum artista. Ela já fez cerca de 10 mil xilogravuras e quando se espantam com a sua fértil imaginação, ele diz que simplesmente expressa o rico universo nordestino, com seus personagens, lendas, bichos, folclore, clima, plantas, ritmos. "Está tudo aí." Tem de mentir - O mundo de J. Borges é inteiramente povoado pelo cordel. Ele nasceu ouvindo as histórias lidas pelo seu pai e quis aprender a ler para poder desfrutar desse tipo de literatura popular. Aos 20 anos, depois de ter sido pedreiro, marceneiro e pintor de parede, começou a vender cordéis de outros autores nas feiras. Logo descobriu sua verdadeira vocação. Passou a escrever os versos que, por conseqüência, lhe inspiraram as ilustrações em xilogravura. J. Borges tem total domínio sobre tudo o que se refere ao cordel. Ele cria as histórias, talha as gravuras ilustrativas em pranchas de madeira com uma faca, imprime e vende. Até a década de 70, ele carregava sua produção pelas feiras e mercados de cidades nordestinas. Hoje, a comercialização é feita no seu ateliê - uma construção acanhada nas margens da BR-232, em Bezerros. Para J. Borges, o segredo do sucesso do cordel depende do talento do seu apresentador, que recita ou canta os versos, e também do seu conteúdo, que deve ter sempre uma pitada de mentira. "As histórias mentirosas viram clássicos, passam de geração a geração", garante. "Pavão Misterioso é um exemplo. Tem mais de cem anos e até hoje vende bem." "Eu já menti muito para o povo", confessa ele, cheio de humor. Ele é autor de 210 cordéis (a maioria esgotada) sobre religião, bravura, acontecimentos jornalísticos, eventos, amor. A Chegada da Prostituta no Céu é um dos seus clássicos. Os "de safadeza" ele não escrevia, vendia dos outros. Os mais apreciados pelo povo, segundo ele, são os religiosos, com profecias apavorantes de guerra, escuridão, seca e peste. Em um deles, O Verdadeiro Aviso de Frei Damião, ele já começa mentindo ao dizer ter ido a Juazeiro do Norte (CE), onde falou com o frade, que mandou um recado para o povo. Borges nunca foi àquela cidade e ilustrou a igreja de Juazeiro com três torres, quando a verdadeira só tem uma. Receita - O artista assegura que o espaço do cordel não foi tomado pela TV, rádio ou Internet. O que falta, segundo ele, é gente disposta a sair pelo mundo vendendo. A receita continua a mesma de décadas e é infalível. Basta chegar, pendurar os cordéis num varal improvisado e, munido de microfone, começar a cantar os versos. "Do jeito que tem gente que lê revista, tem os que se informam com o cordel." J. Borges é um homem entusiasmado consigo mesmo. "Às vezes eu me viro para dentro e quando vejo de onde vim e tudo o que consegui... Quando vejo gente da melhor qualidade me admirando e gostando do que faço... eu, que nasci tão sem condição... aí me impressiono e me sinto realizado." Alguns episódios relembrados no livro Memórias e Contos retratam esse sentimento. Quando ele fez a sua primeira viagem aos Estados Unidos, em 1992, a convite do Museu de Arte Popular de Santa Fé, por exemplo, saiu do Recife atordoado, sem falar inglês, sem conhecer ninguém. Quando chegou lá, encontrou a pesquisadora Katarina Real, norte-americana com título de cidadã recifense, que tem livro sobre o carnaval pernambucano e o conhecia. Ela brincou: "Como é que um matuto criado nas brenhas de Pernambuco chegou aqui?" Ao que ele respondeu, ancho de orgulho: "Eu sou matuto, sou analfabeto, mas não sou burro." J. Borges só lamenta que a fama não tenha lhe proporcionado dinheiro. Há três meses no vermelho, não tem conseguido a receita mensal de R$ 2 mil, que representa o total de suas despesas. "Minha arte é barata", explica. Suas xilogravuras custam de R$ 5,00 a R$ 20,00 dependendo do tamanho. As mais caras, de R$ 60,00, são impressas em papel coreano, de arroz. Cada folheto de cordel custa R$ 1,00. "Costumo dizer que sou um rico sem dinheiro, mas pelo menos eu nunca passei fome como artista." Gratidão - Três casamentos e 18 filhos - dos quais dez vivos -, J. Borges aproveitou a prole para demonstrar sua gratidão por pessoas que tiveram grande importância na sua vida, gente que lhe deu valor e ajudou a impulsionar sua carreira. Por isso, tem filho de nome Ariano (Suassuna), Ivan Marcheti (pintor mineiro), Rafael (Przytyk, colecionador, já morto), Bacaro (Baccaro, artista italiano radicado em Olinda), Joaquim (homenagem dupla, a seu pai e a Joaquim Falcão, presidente da Fundação Roberto Marinho). Outros têm nomes de personagens de histórias de cordel: Manassés, Marili, Jerônimo, Juvenal, Marluce.

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