Rei da disco music, Nile Rodgers passa a vida a limpo em livro

Se hoje você gosta de música pop, certamente já consumiu, direta ou indiretamente, alguma criação do músico, compositor, arranjador e guitarrista americano Nile Rodgers. Também conhecido como líder da banda Chic, este nova-iorquino de 58 anos é um dos músicos/produtores mais importantes da história, com nada menos que 100 milhões de cópias de discos (dele e de artistas produzidos por ele) vendidos.

Claudia Assef, O Estado de S.Paulo

06 de agosto de 2011 | 00h00

Caso você seja fã de música para dançar, sua dívida com ele é ainda maior. É que Rodgers é autor de hinos atemporais das pistas de dança, como Le Freak, Dance Dance Dance e Good Times (todas do Chic), I"m Coming Out e Upside Down (Diana Ross), We Are Family (Sister Sledge), Like a Virgin (Madonna), Let"s Dance (David Bowie)... a lista é grande e de peso!

É improvável que alguém tenha um currículo equiparável ao dele. Além dos já citados Bowie, Madonna, Diana Ross e Sister Sledge, Nile Rodgers já trabalhou com a nata da música pop dos últimos 30 anos: Sugarhill Gang, Debbie Harry, Michael Jackson, INXS, Duran Duran, Hal & Oates, Peter Gabriel, Paul Simon, Cyndi Lauper, Grace Jones, Laurie Anderson, Jeff Beck, Mick Jagger, Stray Cats, B-52"s, Eric Clapton, Bod Dylan, Cerrone, Britney Spears, Joss Stone, Beatie Boys, Basement Jaxx, Snoop Dogg, Lady Gaga... Deu para entender de quem estamos falando, né?

Dá para imaginar o caminhão de histórias que o cara deve ter acumulado ao longo da vida? Pois, ao longo dos últimos dois anos, Nile Rodgers tratou de organizar suas memórias no livro Le Freak: An Upside Down Story of Family, Disco, and Destiny (editora Spiegel & Grau, 336 páginas, US$ 18 na Amazon), que será lançado (por enquanto só em inglês) em 18 de outubro.

No final de junho passado, Nile Rodgers esteve no Brasil para fazer um show numa festa fechada com sua banda, Chic. Foi a segunda visita do músico ao Brasil, e a coluna Ouvido Absoluto aproveitou para fazer a seguinte entrevista com o rei da disco music. Ao longo de quase uma hora de conversa ao telefone, Nile Rodgers contou das lembranças que tinha do Brasil, lembrou dos amigos famosos, do passado com as drogas e falou da luta que travou contra um câncer de próstata, que o motivou a escrever sobre a doença num blog, atualizado diariamente. Leia a seguir trechos da conversa:

A primeira vez no Brasil. "Faz 30 anos, a gente (Chic) veio tocar, e o Village People fez a abertura. Foi incrível. Tocamos num clube chamado Papagaio"s. Na época, o mundo girava numa rotação mais lenta, tudo era mais devagar, e os brasileiros não ligaram de não conhecer nossas músicas. Tocamos em São Paulo e no Rio e me lembro que fiquei até doente, de tanta farra que fizemos."

A música de São Paulo. "Sempre gostei de música brasileira, de Eumir Deodato, essas coisas. Éramos uma banda de funk de Nova York, a gente queria ser diferente. Todo mundo já falava muito do Rio e da Bahia na época. Por isso a gente preferiu falar de São Paulo, pra ser diferente. E, quando conhecemos a cidade, vimos que tínhamos tudo a ver com a paisagem urbana de São Paulo."

Amizades no meio musical. "Minha vida é tão cheia de trabalho, meus trabalhos me consomem tanto... Se eu fosse a cada festinha que me convidam, eu não faria mais nada da vida. Mas claro que faço amizades também! Gosto muito de Debbie Harry, Madonna, Elton John, Sting, Diana Ross, Lady Gaga."

Produzir novos artistas. "Gosto muito de artistas como Janelle Monáe e Bruno Mars. Janelle e eu somos grandes amigos, aliás. Mas não preciso produzi-los pra me sentir bem. Eu já produzi tantos discos que nem sei. Uma vez fizeram uma conta, é um número absurdo (risos). Produção de discos não me interessa tanto mais. Estou no meio do processo de fazer meu primeiro musical na Broadway com o escritor John Walch. A peça se chama Double Time e deve estrear daqui a uns dois anos. Isso tem me empolgado muito!"

Le Freak. "Sim, é verdade que a música Le Freak iria se chamar Fuck Off! Escrevemos esta música na noite em que fomos barrados na porta do histórico clube nova-iorquino Studio 54. Era réveillon de 1977, e a (cantora) Grace Jones ligou convidando a gente pra ver um show dela lá. Fomos até lá e tentamos entra, mas ela tinha se esquecido de colocar nossos nomes na lista. Conclusão: demos com a cara na porta. Ficamos p. da vida, fomos pra casa, que era ali perto, e fizemos a música "aaaah, fuck off" ("vão se danar"). O cara que me barrou na porta me achou no Facebook outro dia e me pediu desculpas, mais de 30 anos depois, dá pra acreditar???" (Risos)

Tecnologia e o conceito de álbum. "Na música pop, realmente não existe mais esse conceito. Alguns artistas que ainda trabalham essa ideia são Cee-Lo Green, Janelle Monáe, Outkast. Coincidência ou não, esses artistas são todos de Atlanta, acho que é porque ainda têm aquele DNA de R&B."

O livro. "Ele é enorme. Contratei um ghost writer bem caro, ele escreveu super bem. Mas eu também escrevi. Eu escrevo como um compositor. Gosto de coisas que pegam o leitor. Eu me esforço muito em fazer as pessoas entenderem o que eu vivi. Me diverti repassando minha vida. E o mais curioso é que ganhei uma montanha de dinheiro com o livro, coisa que eu sei que é difícil nesse mercado. Ainda não sei se Le Freak... vai sair no Brasil, eu quero muito!"

Doença. "Não tenho problemas em falar disso. Eu tive câncer no fim do ano passado. Fiquei com tanto medo. Não tinha ninguém pra conversar porque era um câncer de próstata, ninguém queria conversar comigo, era um tabu. Quando comecei a escrever sobre isso, senti um alívio. Daí eu abri um blog pra falar sobre câncer, música e vida (em www.nilerodgers.com). Quando fui diagnosticado com a doença, falaram que era muito sério. Resolvi que precisava escrever para não pirar. Escrevo todos os dias sobre a doença. Falo com as pessoas que me escrevem. Agora já posso dizer que venci a doença, estou curado - claro, a menos que ela volte. Dos cinco integrantes originais do Chic, os únicos dois que restam somos eu e o Rob Sabino. Ele agora toca numa igreja católica. E eu, apesar dos meus anos de drogas, baladas, sexo e depois de vencer um câncer, estou aqui pra contar tudo isso. Eu sou um cara muito otimista. Minha filosofia é: já que não se pode controlar o que acontece com você, pelo menos dá para controlar como reagimos aos acontecimentos. Se eu pensar coisas ruins, elas vão acontecer. Sabe aquele filme A Vida É Bela? É por aí a minha filosofia..."

CLAUDIA ASSEF, 37, É AUTORA DO LIVRO E BLOG TODO DJ JÁ SAMBOU E É DIRETORA DE CONTEÚDO DO PORTAL VIRGULA

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