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Rei da contramão

Alguma barbeiragem devo ter feito na crônica da semana passada, pois alguns leitores (sim, os há!) vieram me perguntar por que é que eu não gostava de Carlos Heitor Cony. Ledíssimo engano, reagi surpreso, e expliquei que, em matéria de Cony, ao contrário, sou apreciador antigo da pessoa e da obra. Apreensivo, fui reler meu texto, no qual conto que apaguei da memória o romance A Verdade de Cada Dia, e não sem bons motivos, já que o próprio autor o fez.

Humberto Werneck, O Estado de S.Paulo

10 de maio de 2016 | 02h00

Talvez tenha faltado dizer que aquele livro, embora deletável, me abriu caminho para a prosa deleitável de Cony, a começar por O Ventre, Informação ao Crucificado e Matéria de Memória, romances lidos e relidos nos meus anos de formação. Tornei-me freguês, também, das crônicas de Da Arte de Falar Mal e dos artigos políticos que tanto barulho fizeram no imediato pós-golpe de 1964, em seguida reunidos em O Ato e o Fato.

Pessoalmente, fui conhecê-lo bem mais tarde, em 1976, na cobertura do casamento do rei da Suécia, ele pela revista Manchete, eu pelo Jornal da Tarde. Tinha sempre um comentário divertido, não raro banhado em ceticismo e irreverência. Quando, num papo de jornalistas, alguém contou que os suecos tinham comissões para estudar o que fazer caso viessem a faltar determinadas matérias -primas, Cony, com ar de enfado, deu uma baixada na bola da admiração geral: “Bah, comissão para criar problema...”.

Voltamos a nos encontrar nos anos 1990, quando, depois de largo silêncio como ficcionista, ele reapareceu ruidosa e definitivamente na cena literária, com Quase Memória. O romance anterior, Pilatos, saído 23 anos antes, é a história de um infeliz cujo nome o destino veio a tornar paradoxal, pois Álvaro Picadura teve o pênis decepado. Aonde for, levará o destroço, boiando em formol num vidro de compota.

Não sem picardia, Cony sustenta – ele e mais ninguém – ser este o seu melhor romance. Chega a se irritar com quem prefira Quase Memória. Ao entrevistá-lo no programa Roda Viva, me referi a este livro, no qual acerta contas do coração com o falecido pai, como sendo um raro escrito em que ele se permite um grão de doçura. Farejando excesso de glicose, Cony não escondeu o desconforto – e, tão logo pôde, me fez chegar o amaríssimo Pilatos.

Sua alegada preferência por esse romance repulsivo a meu ver ilustra o que seria a propensão de Cony para remar contra a corrente. Puxei o assunto numa entrevista que me deu para a Playboy, em 1997, e ele admitiu: “Gosto de ser do contra, é uma tendência minha”. Para prová-lo, só faltou tentar me convencer de que, em se tratando dele, eu manifesto apreço por pessoa errada.

Falamos também da tranquilidade com que se diz “alienado”. Confirmou, com uma ressalva: “Só não sou alienado quanto à condição humana”. E, como exemplo, sacou uma história que aqui vai, com o cuidado meu de omitir o nome da personagem.

Pouco antes daquela entrevista, Cony escreveu artigo elogiando uma socialite das mais notórias, na época às voltas com adversidades que não se limitavam a uma dramática rarefação do saldo bancário. Cony foi visitá-la, e o panorama que encontrou lhe pareceu “terrível”.

Transcrevo: “Ela está doente, tem um problema chato na perna, sente dores, vive à base de cortisona, está enorme, monstruosa de feia. Mas, na hora de fotografia, bota aquele sorriso e ainda é uma perua. E todo mundo está chutando esse cachorro morto atropelado. Mas no momento em que está na desgraça e virou saco de pancada, eu me recuso a linchar. Nunca linchei um Judas. Agora, ela conseguiu dar a volta por cima? Aí vou em cima dela, entendeu? Talvez eu tenha herdado isso de meu pai: adoro causas perdidas”.

Com a Playboy nas bancas, liguei para a dama em questão e lhe pedi entrevista, na certeza, reiterada agora, de que, não exatamente o episódio, mas sua vida, renderia ótima conversa. Veio de lá, porém, em vez de alô, uma tina de água gelada: sentindo-se ferida, estava disposta a levar Cony aos tribunais. Não sei no que deu a história, na qual acabou sobrando para o repórter. Tão logo me identifiquei, madame soltou o que estava longe de ser cachorro morto: “Não sei quem é mais cara de pau”, rugiu, “se é o senhor, de me ligar, ou eu, de atender a sua ligação. Passe bem!”.

Lembro-me de outro lance da entrevista com esse rei da contramão. A certa altura, sem aparente emoção, Carlos Heitor Cony recebeu telefonema com a notícia de que era o ganhador do então mais disputado prêmio literário do País, o Nestlé, pelo romance O Piano e a Orquestra. Nunca vi, antes ou depois, alguém ganhar 50 mil reais, equivalentes, na época, a quase outros tantos dólares, e, no minuto seguinte, retomar o papo como se nada houvesse acontecido.

 

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